RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 60, n. 2, março-abril 2020

Editorial: 

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-759020200201

 

PESQUISA EM TEMPOS DE PANDEMIA

A produção deste número da RAE foi surpreendida pelas intensas transformações causadas pela presença da Covid-19 em todas as regiões do planeta. É impossível não se lembrar do filme Melancolia, de Lars Von Triers. Neste momento (escrevo na primeira semana de abril, na cidade de São Paulo), ainda não é possível prever que rumo a pandemia vai tomar no Brasil. Como acontece com as revistas acadêmicas, nossos artigos e fóruns, organizados em seis edições anuais, são planejados com muita antecedência. Nossas publicações para o ano de 2020 estão todas encaminhadas, bem como algumas edições de 2021. Nesse sentido, o impacto de uma possível diminuição de submissões devido à pandemia pode ocorrer no próximo ano. Mas nossa expectativa é que a produção científica em Administração de Empresas crescerá, criativamente, nas próximas décadas. Não temos bola de cristal para prever as mudanças que poderão vir a ocorrer na prática e na pesquisa, mas o debate, neste momento que passamos, já aponta para profundas revisões em diversas áreas, por exemplo,  comportamento organizacional (lideranças em tempos de crise são fundamentais, assim como engajamento), organização do trabalho, marketing em redes sociais e o varejo (o mundo on-line potencializou o consumo por delivery), a logística humanitária (que já havia se desenvolvido pós-Katrina), as finanças comportamentais, empresas e direitos humanos, impacto social dos negócios, a sustentabilidade em amplo sentido (e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU), a gestão da Saúde, a parceria público-privada, para mencionar apenas algumas áreas que compõem a complexidade da Administração de Empresas em tempos globais. Parece que o século XXI realmente começou agora. A globalização será revista? Nosso vaivém pelo planeta diminuirá? A educação nas escolas de negócios será revisitada? Embora seja angustiante, temos muitas perguntas e nenhuma resposta sobre esse futuro. Mas, nesse momento, a pesquisa científica se fortalece, o que já é alentador para todos nós, professores e pesquisadores.  O mundo pós-pandemia será reconstruído e temos várias iniciativas nessa direção: revistas científicas, em várias áreas, já fazem chamadas para artigos que tratem desse novo cenário; centros de pesquisas nacionais e internacionais se associam para desenvolver projetos comuns e órgãos financiadores propõem verbas para projetos. De um lado, as pessoas passam por um período muito doloroso, de outro, abrem-se possibilidades criativas para a pesquisa sobre novas formas de gestão. 

Com foco na área de Estudos Organizacionais, o fórum apresentado neste número vem a calhar. Como integrar nossas pesquisas com os colegas da América Latina? Podemos e devemos rever princípios que nortearam a pesquisa até agora? O presidente da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz (*), menciona que a internacionalização da pesquisa é fundamental para o desenvolvimento da ciência. Este número, dedicado à América Latina, questiona os princípios que nortearam o crescimento dos Estudos Organizacionais na região e conta com os seguintes trabalhos: “Estudios Organizacionales en América Latina: Hacia una agenda de investigación”, de Diego Szlechter, Leonardo Solarte Pazos, Juliana Cristina Teixeira, Jorge Feregrino, Pablo Isla Madariaga e Rafael Alcadipani; “Pensar desde a América Latina em diálogo com a organização das lutas sociais descoloniais: Explorando possibilidades”, de Maria Ceci Araújo Misoczky e Guilherme Dornelas Camara; “Los Estudios Organizacionales en Latinoamérica: ¡Vuelta al terreno áspero!”, de Diego René Gonzales-Miranda; “Experiências agrestinas: Pistas para a pesquisa sobre gente e negócios em contexto periférico”, de Marcio Sá; “No politics, no society: Questioning the justification of entrepreneurship in Chilean public policies”, de Oriana Bernasconi e Juan Felipe Espinosa-Cristia; “Tupi or not Tupi that is the question: Perspectivismo ameríndio e Estudos Organizacionais”, de Sergio Eduardo de Pinho Velho Wanderley e Ana Paula Medeiros Bauer; “Organizando los Estudios Organizacionales en Chile: Historia de la creación del Grupo Minga”, de Gregorio Perez-Arrau, Alvaro Espejo, Marcela Mandiola, Nicolás Ríos González e Juan Pablo Toro.

Completam esta edição a Pensata “De onde viemos, para onde vamos? Autocrítica coletiva e horizontes desejáveis aos Estudos Organizacionais no Brasil”, de Marcio Sá, Rafael Alcadipani, Ariston Azevedo, Ariádne Scalfoni Rigo e Luiz Alex Silva Saraiva, também sobre o tema deste fórum.

 

Boa leitura, cuidem-se bem!

 

Maria José Tonelli1 | ORCID: 0000-0002-6585-1493

Felipe Zambaldi1 | ORCID: 0000-0002-5378-6444

1Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

 

(*) O professor Carlos Henrique de Brito Cruz deixa a presidência da Fapesp em abril de 2020. Entrevista concedida para o jornal Folha de S.Paulo, em 7/4/2020. Consulta em 7/4/2020, no sitehttps://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/vamos-sofrer-menos-se-nos-basearmos-na-ciencia-mas-ela-nao-faz-magica-diz-brito-cruz.shtml

 

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