RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 59, n. 6, novembro-dezembro 2019

Editorial: 

Versão original

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-759020190601

 

PROPRIEDADE DOS DADOS E CIÊNCIA ABERTA

A prática de acesso aberto aos artigos, adotada no Brasil e em vários outros países, ainda enfrenta resistência por parte de muitas editoras comerciais no exterior (Packer & Santos, 2019a). Mais recentemente, algumas passaram a utilizar um modelo híbrido de acesso aberto e fechado, como um caminho alternativo e não tão polarizado. Também está em andamento a discussão sobre transparência no processo de revisão por pares: o SciELO recomenda “avanço gradual de transparência e abertura [...] com a abertura das identidades dos autores e pareceristas durante o processo de avaliação” (Packer & Santos, 2019b). Mas ainda mais polêmica é a política de acesso aberto dos dados das pesquisas dos artigos veiculados em publicações científicas. No blog SciELO em Perspectiva, encontram-se vários textos sobre essa tendência, questionada por diversos atores envolvidos no processo de produção e publicação de artigos científicos: autores, universidades, editores e publishers. Quem é o proprietário dos dados? Nassi-Calò (2019) mostra que as pesquisas sobre essa questão permanecem inconclusivas, e muitos atores desse processo podem ser os proprietários: financiadores da pesquisa, instituição do pesquisador, publisher, além, claro, da visão de que os dados são de propriedade dos autores. A autora argumenta que a ciência aberta “é uma demanda da sociedade, dos governos e financiadores. Esta prática traz inúmeras vantagens ao tornar a ciência mais transparente, reprodutível, confiável e verificável” (Nassi-Calò, 2019). Na perspectiva dos pesquisadores, entretanto, há inúmeras questões. Na pesquisa qualitativa, por exemplo, realizada por meio de entrevistas, quando se garante o anonimato dos entrevistados, registrado por meio de consentimento informado, como proceder? Nas Ciências Exatas e Biológicas, talvez essa questão não se coloque, mas é premente quando se trata de pesquisa nas Ciências Humanas, pois os informantes poderão ser identificados e o sigilo garantido dentro dos padrões éticos em pesquisa, violado. Isso sem considerar as questões de tempo e recursos dos pesquisadores, além da propriedade de dados secundários de terceiros que muitas vezes cedem o acesso exclusivamente para uma pesquisa específica. Outros aspectos que se fazem presentes para a transparência dos dados nessa era de ciência aberta, descrita como e-science, como apontam Targino e Garcia (2018), são a necessidade de ciberestrutura (bases tecnológicas que comportem os dados), a colaboração da sociedade, bem como o apoio do Estado. Mas, novamente, quais são os proprietários da infraestrutura tecnológica que guarda os dados? Packer e Santos (2019b) argumentam que ciência aberta é um movimento irreversível, e o 4.o Plano Brasileiro de Ação nesse tópico envolve alguns marcos claramente definidos para o futuro (Packer & Santos, 2019b), a partir das diretrizes da Global Open Fair. No Brasil, a área da saúde já trabalha com essas diretrizes, mas é necessário, argumentam os autores, que programas de pós-graduação invistam em programas de treinamento. Também a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) trabalha com essa orientação em Projetos Temáticos. A valorização das pesquisas no futuro estará vinculada não só ao periódico em que o artigo foi publicado, mas também aos dados disponibilizados (Kiley & Markie, 2019). Supostamente, essa ação eliminaria problemas como plágio, reprodutibilidade da pesquisa, vieses, entre outros. Critérios que, sem dúvida, são válidos para as Ciências Exatas e Biológicas. Mas esses critérios são aplicáveis para as Ciências Humanas, que se ocupam, muitas vezes, de fenômenos únicos, não replicáveis? Se hoje até a neutralidade dos algoritmos é questionada, será que podemos mesmo fazer ciência sem vieses? Será que os dados são neutros?

Essa edição contempla justamente um fórum sobre Big Data, organizado por Eduardo de Rezende Francisco, José Luiz Kugler, Soong Moon Kang, Ricardo Silva e Peter Alexander Whigham. O fórum traz o primeiro artigo convidado, "A jornada acaba de começar", por William Lekse. Em seguida, a introdução ao fórum, "Além da tecnologia: Desafios gerenciais na era do Big Data", dos organizadores. E continua com os artigos: "Capacidade de gestão da informação e implementação de estratégia de Big Data", de Antonio Carlos Gastaud Maçada, Rafael Alfonso Brinkhues e José Carlos da Silva Freitas Junior; "Intenção de adoção de Big Data na cadeia de suprimentos: Uma perspectiva brasileira", de Maciel M. Queiroz e Susana Carla Farias Pereira; "Medindo a acessibilidade: Uma perspectiva de Big Data sobre os tempos de espera do serviço da Uber", de André Insardi e Rodolfo Oliveira Lorenzo, e "Fatores que afetam a adoção de análises de Big Data em empresas", de Juan-Pedro Cabrera-Sánchez e Ángel F. Villarejo-Ramos. A seção Perspectivas também traz o debate sobre o uso de Big Data nos negócios: "Big Data e disrupções nos modelos de negócios", por Eric Van Heck, e "Plus ça change, plus c’est la même chose [Quanto mais as coisas mudam mais elas permanecem as mesmas]", por Flávio Bartman. A pensata de Cintia Rodrigues de Oliveira, "Crimes corporativos: Um espectro ronda o mundo, o espectro do genocídio", nos lembra que más condutas, comportamentos antiéticos e irresponsabilidade social corporativa também permeiam o mundo dos negócios.

Boa leitura!

Maria José Tonelli1 | ORCID: 0000-0002-6585-1493

Felipe Zambaldi1 | ORCID: 0000-0002-5378-6444

1 Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

 

REFERÊNCIAS

KILEY, R., & MARKIE, M. (2019). Wellcome Open Research, o futuro da Comunicação Científica? [Publicado originalmente no blog LSE Impact of Social Sciences em fevereiro/2019] [online]. SciELO em Perspectiva. Retrieved from: https://blog.scielo.org/blog/2019/02/27/wellcome-open-research-o-futuro-da-comunicacao-cientifica/

Nassi-Calò, L. (2019). Promovendo e acelerando o compartilhamento de dados de pesquisa [on-line]. SciELO em Perspectiva. Retrieved from https://blog.scielo.org/blog/2019/06/13/promovendo-e-acelerando-o-compartilhamento-de-dados-de-pesquisa/

Packer, A. L., & Santos, S. (2019a). Ciência aberta e o novo modus operandi de comunicar pesquisa – Parte I [on-line]. SciELO em Perspectiva. Retrieved from https://blog.scielo.org/blog/2019/08/01/ciencia-aberta-e-o-novo-modus-operandi-de-comunicar-pesquisa-parte-i/

Packer, A. L., & Santos, S. (2019b). Ciência aberta e o novo modus operandi de comunicar pesquisa – Parte II [on-line]. SciELO em Perspectiva. Retrieved from https://blog.scielo.org/blog/2019/08/01/ciencia-aberta-e-o-novo-modus-operandi-de-comunicar-pesquisa-parte-ii/

Targino, M. G., & Garcia, J. C. R. (2018). Perspectivas da avaliação por pares aberta: Instigante ponto de interrogação [on-line]. SciELO em Perspectiva. Retrieved from https://blog.scielo.org/blog/2018/05/14/perspectivas-da-avaliacao-por-pares-aberta-instigante-ponto-de-interrogacao/

 

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