RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 59, n. 2, março-abril 2019

Editorial: 

Versão original

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-759020190201

 

HUMOR NA ACADEMIA E PESQUISAS SOBRE HUMOR

Começamos o editorial da edição passada – o primeiro do ano – com uma breve brincadeira e fomos questionados por alguns colegas como se tivéssemos cometido alguma heresia: “O que é isso num editorial?”. Bem, talvez não tenha sido uma boa piada, mas o questionamento foi ótimo e pede uma reflexão. Será que a academia precisa necessariamente ser inodora e incolor? Será que o humor não pode fazer parte da vida dos pesquisadores? Precisamos ser sisudos e sem graça? Bem, essa visão me parece desconsiderar as próprias pesquisas que mostram o benefício do humor para a criatividade, o bem-estar e a saúde e para melhores resultados nas organizações (Mesmer-Magnus, Glew, & Viswesvaran, 2012). O humor está embebido nos próprios processos de trabalho (Korczynski, 2011) e constitui um elemento fundamental na construção das relações humanas. O humor facilita o trabalho (Rodrigues & Collison, 1995), como nos informa o artigo seminal sobre o tema de humor na área de Estudos Organizacionais, escrito pela pesquisadora brasileira Suzana Braga Rodrigues. O humor tem importância para indivíduos, organizações e sociedade (Duarte & Duarte, 2016), e até existe um periódico voltado exclusivamente para pesquisas sobre humor: The European Journal of Humour Research. Reforçando a positividade desse traço humano para o trabalho, os artigos de Romero e Cruthirds (2006) e, no contexto brasileiro, Castro Silva e Brito (2014) mostram que o humor tem impacto positivo na comunicação, na coesão grupal e na liderança. O humor faz parte do discurso organizacional (Koester, 2010) e do espaço do trabalho (Chefneux, 2015; Vivona, 2014). Em síntese, o papel do humor na convivência no trabalho parece ser fundamental para o bom funcionamento das organizações.

Mas o humor não é apenas um aspecto positivo do comportamento humano. Pode carregar cinismo, sexismo e agressividade, além de ser o primeiro passo na direção do bullying e dos mais diversos preconceitos que cercam os humanos, como em questões de raça, etnia, gênero e idade, para listar as mais comuns (Irigaray, Saraiva, & Carrieri, 2010; Korczynski, 2011; Westwood & Johnston, 2012; Wood & Caldas, 2005). O humor é uma forma de resistência que pode chegar à sabotagem (Alcadipani, Hassard, & Islam, 2018; Medeiros & Alcadipani, 2016) e, por vezes, a única que permite demonstrar insatisfação no trabalho (Rodrigues & Collinson, 1995), além de expressar também formas de controle (Huber & Brown, 2017) que podem provocar o riso (Valadão, Medeiros, & Teixeira, 2017). Com as novas tecnologias, o humor pode adquirir outras cores na internet, com novas estratégias de crítica a processos organizacionais (Furtado, Carrieri, & Bretas, 2014).

O humor permeia o mundo do trabalho e das organizações (Westwood & Rhodes, 2007) assim como as diversas esferas da vida. Mas, em pleno século XXI, que tipo de organização não permite humor? Organizações totais, como já nos mostrou Goffman (1974) em Manicômios, prisões e conventos? O humor pode ser apropriado ou inapropriado (Huber & Brown, 2017; Vivona, 2014) mas, para além de sua avaliação, podemos nos perguntar qual o significado de sua ausência. Vale uma pesquisa para entender o papel do humor na academia. 

Compõem esta edição quatro artigos: "O elo perdido entre o sistema de trabalho de alto desempenho e a percepção de política organizacional”, escrito por Adnan Riaz, Saima Batool e Mohd Shamsuri Md Saad; “Relación entre la innovación y el desempeño: Impacto de la intensidad competitiva y el slack organizacional”, por Diego Armando Marín-Idárraga e Juan Carlos Cuartas-Marín; “Impactos na vida social e familiar do trabalho por turnos na perspectiva dos familiares”, por Daniela Costa e Isabel Soares Silva; e, por fim, “Cartografia estrutural para revisão de literatura: Revelando a estrutura subjacente de uma literatura por meio de um atlas bibliográfico”, por Joaquim Heck e Ion Georgiou. A seção Perspectivas traz dois textos relevantes para área de Logística e Operações: “Ambidestria e coevolução em operações: Integrando teoria e prática” e “O dilema da criatividade”, escritos por Ely Laureano Paiva e Elena Revilla, respectivamente. Já na seção Resenha, Luiz Alex Silva Saraiva, em “Do agreste para o mundo”, traz seu ponto de vista sobre a obra Filhos das feiras: Uma composição do campo de negócios agreste, de Márcio Sá.

Boa leitura!

Maria José Tonelli1 | ORCID: 0000-0002-6585-1493

Felipe Zambaldi1 | ORCID: 0000-0002-5378-6444

1Fundação Getulio Vargas Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

 

REFERÊNCIAS

Alcadipani, R., Hassard, J., & Islam, G. (2018). –“I shot the sheriff”: Irony, sarcasm and the changing nature of workplace resistance. Journal of Management Studies, 55(8), 1452-1487. doi:10.1111/joms.12356

Castro Silva, R.R.C.; Brito, M.J. (2014). Humor no espaço organizacional: um estudo interpretativo em um call center. Revista Eletrônica de Gestão Organizacional, 12(2), 113-124.

Chefneux, G. (2015). Humour at work. Language and Dialogue, 5(3), 381-407. doi:10.1075/ld.5.3.02che

Duarte, S. R., & Duarte, L. C. R. de P. (2016). O humor nas organizações: Um estudo epistemológico. Revista Hospitalidade, 13(2), 336-357.

Furtado, R. A., Carrieri, A. de P., & Bretas, P. F. F. (2014). Humor na internet: Trabalhadores utilizam novas estratégias para protestar contra demissões e terceirizações. Revista de Administração (São Paulo), 49(1), 33-44. doi:10.5700/rausp1129

Goffman, I. (1974). Manicômios, prisões e conventos. São Paulo, SP: Perspectiva. Huber, G., & Brown, A. (2017). Identity work, humour and disciplinary power. Organization Studies, 38(8), 1107-1126. doi:10.1177/0170840616677632

Irigaray, H. A. R., Saraiva, L. A. S., & Carrieri, A. de P. (2010). Humor e discriminação por orientação sexual no âmbito organizacional. Revista de Administração Contemporânea, 14(5), 890-906. doi:10.1590/S1415- 65552010000500008

Koester, A. (2010). Workplace discourse. London, UK: Continuum International Publishing Group.

Korczynski, M. (2011). The dialectical sense of humour: Routine joking in a taylorized factory. Organization Studies, 32(10), 1421-1439. doi:10.1177/0170840611421256

Medeiros, C. R. de O., & Alcadipani, R. (2016). In the corporate backstage, the taste of revenge: Misbehaviour and humor as form of resistance and subversion. Revista de Administração (São Paulo), 51(2), 123-136. doi:10.5700/rausp1229

Mesmer-Magnus, J., Glew, D. J., & Viswesvaran, C. (2012). A meta-analysis of positive humour in the workplace. Journal of Managerial Psychology, 27(2), 155-190. doi:10.1108/02683941211199554

Rodrigues, S. B., & Collison, D. L. (1995). Having fun? Humour as resistance in Brazil. Organization Studies, 16(5), 739-768. doi:10.1177/017084069501600501

Romero, E. J., & Cruthirds, K. (2006). The use of humour in the workplace. Academy of Management Perspectives, 20(2). doi:10.5465/amp.2006.20591005

Valadão, V. M., Medeiros, C. R. de O., & Teixeira, F. D. (2017). Luz, câmera, ação! Quando a resistência ao poder e controle organizacional provoca o riso. Revista Interdisciplinar de Gestão Social, 6(2), 75-92. doi:10.21714/2317-2428/2017v6n2p75-92

Vivona, B. D. (2014). “To laugh or not to laugh”: Understanding the appropriateness of humour and joking in the workplace. The European Journal of Humour Research, 2(1). doi:10.7592/EJHR2014.2.1.vivona

Westwood, R., & Johnston, A. (2012). Reclaiming authentic selves: Control, resistive humour and identity work in the office. Organization, 19(6), 787-808. doi:10.1177/1350508411422583

Westwood, R., & Rhodes, C. (Eds.). (2007). Humour, work and organization. London, UK: Routledge.

Wood, T., Jr., & Caldas, M. P. (2005). Rindo do quê? Como consultores reagem ao humor crítico e à ironia sobre sua profissão. Organização e Sociedade, 12(34), 83-10. doi:10.1590/S1984-92302005000300006

 

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