RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 58, n. 4, Julho-Agosto 2018

Editorial: 
Versão original
DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-759020180401
 
 
CIÊNCIA E SOCIEDADE
 
Neste momento de distopia que vivemos, não custa lembrar as questões propostas por Rousseau no século XVIII: A ciência servirá para destruir nossos costumes? Manter nossas virtudes? A ciência tem sido útil para diminuir as desigualdades? Santos (2008) afirma que estamos num momento de ruptura da ordem científica que hegemonicamente regeu o desenvolvimento científico nos últimos séculos. O século XXI, diz Santos, não fará mais distinção entre ciências naturais e ciências humanas, e as ciências sociais se libertarão do positivismo, uma vez que esse modelo em vigência “é também um modelo totalitário” (Santos, 2008, p. 11). Nesse modelo, continua o autor, “conhecer significa quantificar” (Santos, 2008, p. 15), mas isso implica reduzir a complexidade, num determinismo mecanicista que ainda não contempla a visão contemporânea de que “todo o conhecimento científico-natural é científico social” (Santos, 2008, p. 37). De fato, não é possível ignorar Berger e Luckmann (1974), no clássico A construção social da realidade, nem Bourdieu (2002), que nos informa que a ciência é um campo social em disputas como qualquer outro, um local de batalhas competitivas entre homens. Temos que considerar aqui que o texto de Bourdieu antecede o debate feminista mais intenso das últimas décadas e deveríamos incluir aqui as mulheres nas disputas de poder em diversos campos científicos. Mas essa é uma outra conversa. Santos (2008) pode sonhar que, um dia, as ciências sejam mais sociais, porém o que vemos ainda hoje é uma razão cativa dentro de princípios supostamente científicos, e a racionalidade científica que tanto prezamos talvez não seja tão inocente (Rouanet, 1985). Como argumenta Habermas (1987), a técnica e a ciência se transformaram em ideologia. Nada disso, entretanto, deveria nos desanimar, já que essa condição apenas repete a força dos dogmas ao longo da história da humanidade. As questões de Rousseau continuam presentes, e uma outra pergunta que talvez caiba ter em mente é: Qual ciência fazemos e para qual sociedade?
 
Dentro da abordagem pluralista da RAE, esta edição conta com artigos de diferentes áreas de conhecimento (Marketing, Finanças, Gestão de Pessoas, Estudos Organizacionais, Empreendedorismo, Operações e Logística), além da seção Perspectiva, em que Sandro Cabral e Marcelo de Souza Bispo debatem o tema “Desafios na revisão de artigos científicos em Administração no Brasil”. Completam esta edição duas resenhas, dos livros A lógica do consumo: Verdades e mentiras sobre por que compramos, de Martin Lindstrom, escrita por Lucas Rodrigo Santos de Almeida, e The end of Accounting and the path forward for investors and managers, de Baruch Lev e Feng Gu, escrita por Joyce Mariella Medeiros Cavalcanti, Hudson Fernandes Amaral e Laise Ferraz Correia, além das indicações bibliográficas “Gestão da ciência, tecnologia e inovação”, de Bruno Brandão Fischer, e “Relação universidade-empresa”, de Renato Garcia e Wilson Suzigan.
 
Boa leitura!
 
Maria José Tonelli1 | ORCID: 0000-0002-6585-1493
Felipe Zambaldi1 | ORCID: 0000-0002-5378-6444
 
1Fundação Getulio Vargas Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
 
 
 
REFERÊNCIAS
 
Berger, P. L., & Luckmann, T. (1974). A construção social da realidade. Petrópolis, RJ: Vozes.
 
Bourdieu, P. (2002). Campo de poder, campo intellectual: Itinerario de un concepto. Editorial Montressor.(Colección Jungla Simbólica.)
 
Habermas, J. (1987). Técnica e ciência como ideologia. Lisboa, Portugal: Edições 70.
 
Rouanet, S. O. (1985). A razão cativa. São Paulo, SP: Brasiliense.
 
Santos, B. S. (2008). Um discurso sobre as ciências (5a ed.). São Paulo, SP: Cortez.

 

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