RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 59, n. 1, Janeiro-Fevereiro 2019

Editorial: 

Versão original

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-759020190101

ANO NOVO, VELHAS QUESTÕES...

Uma piada do Pink diz: “O que você vai fazer no ano novo?”, ao que Cérebro responde: “O mesmoque fiz no ano passado, tentar emagrecer e ficar rico”. Brincadeiras à parte, o que esperamos deste novo ano? Continuar a receber as excelentes contribuições de nossos pesquisadores e contar com a cooperação inestimável de nossos editores científicos e revisores, essenciais para a continuidade da RAE, que, com quase 60 anos de publicação ininterrupta, foi fundamental para a construção do campo acadêmico em Administração no País (Tonelli, 2018).

Mas uma questão nos preocupa: qual o futuro das revistas em Administração no Brasil? E o quanto a publicação dos periódicos em língua inglesa impacta esse futuro? Não se trata de uma questão nova. O debate sobre esse tema vem recebendo a atenção dos pesquisadores brasileiros há algum tempo, seja em debates nos congressos brasileiros, seja em publicações. Se, de um lado, publicar em inglês pode dar maior visibilidade internacional à produção de conhecimento local, de outro lado, alguns pesquisadores argumentam que esse modelo traz uma neocolonização, em outras palavras, novas formas de controle e de submissão dos povos do Sul aos modelos do Norte que restringem outros modos de pensar (Alves & Pozzebon, 2013; Rosa & Alves, 2011).

Esse processo é acompanhado por outro fenômeno: ao serem estimulados a publicar em inglês, os autores brasileiros podem preferir encaminhar seus artigos para periódicos internacionais, preterindo os periódicos nacionais (ainda que publicados em inglês), o que acaba por reforçar um modelo de internacionalização da pesquisa nacional, mas que não necessariamente contribui para elevar a qualidade dos periódicos nacionais ou o desenvolvimento de saberes locais (Alcadipani, 2017; Diniz, 2017; Farias, 2017).

Além disso, Diniz (2017) aponta também que os artigos brasileiros em inglês, seja em revistas nacionais ou internacionais, podem ou não ser citados, com o agravante de que, em nosso próprio país, não poderão ser lidos, já que apenas 5% da população brasileira domina razoavelmente o idioma. A qualidade dos artigos, a qualidade da redação no idioma inglês e a coautoria com pesquisadores estrangeiros são também determinantes para que pesquisas brasileiras (Farias, 2017) sejam referências internacionais. O fato de um periódico estar em inglês não garante que será lido ou que seus artigos serão citados.

Outro aspecto apontado por Farias (2017) é que a grande quantidade de periódicos brasileiros não favorece a qualidade e a visibilidade dos artigos publicados, seja em inglês ou em português. Embora o SciELO imponha critérios para a internacionalização dos periódicos no País, eles não são suficientes para garantir aumento da visibilidade. Outros países estão competindo globalmente; em especial, a China, que está sendo apontada como o modelo para a ciência no futuro (The Economist, 2019). Além disso, Fradkin (2017) mostra que, ao menos na área de Psicologia, a simples publicação de artigos em inglês não tem correlação com a internacionalização. Estamos diante de um fenômeno que pode, num efeito inverso, restringir ainda mais o desenvolvimento da ciência em Administração no Brasil, longe de questões sociais e práticas de que o País necessita.

Além disso, a maioria dos programas de pós-graduação no Brasil exige o domínio do idioma inglês para leitura, mas está longe de trabalhar com a mesma lógica de fazer ciência que os países do Norte (Alcadipani, 2017; Farias, 2017; Rosa & Alves, 2011). Mais do que isso, a academia brasileira sofre com o produtivismo e com a baixa contribuição científica e/ou prática (Alcadipani, 2017; Bertero, 2011; Machado & Bianchetti, 2011). Em síntese, vários fatores se juntam quando se trata de prever o futuro dos periódicos brasileiros: a questão do idioma, que não necessariamente leva a uma maior visibilidade das revistas; o produtivismo acadêmico, que não necessariamente traz qualidade para os artigos a serem publicados; e a lógica de produção de conhecimento e a lógica de estruturação dos programas de pósgraduação no País.

Estamos num momento de transição – tanto nos periódicos como no cenário geopolítico e econômico nacional e internacional – e esses momentos não nos permitem ainda ter clareza sobre a forma que as revistas assumirão no futuro. Esperamos que, ao passar pelo nevoeiro, devagar, como diz Paulinho da Vila, possamos enxergar um futuro promissor.

Convidamos nossos professores, pesquisadores e estudantes de pós-graduação para a leitura dos artigos desta edição: “Espiritualidade, convicção moral e quebra de regras pró-sociais na área da saúde”, por Muhammad Ali Asadullah, Ifrah Fayyaz e Rizwana Amin; “A representação social de cloud computing pela percepção dos profissionais brasileiros de tecnologia da informação”, por Gustavo Guimarães Marchisotti, Luiz Antonio Joia e Rodrigo Baroni de Carvalho; “Fatores relacionados com a maturidade do Sistema de Gestão Ambiental de empresas industriais brasileiras”, por Blênio Cezar Severo Peixe, Andréa Cristina Trierweiller, Antonio Cezar Bornia, Rafael Tezza e Lucila Maria de Souza Campos; “Restrições de resgate em fundos de ações, liquidez dos ativos e desempenho”, por Dermeval Martins Borges Junior e Rodrigo Fernandes Malaquias; na Seção Perspectivas, “Desafios do ensino de estratégia em mestrados e doutorados profissionais”, do autor Jorge Renato de Souza Verschoore; e “Ensino de estratégia em MBAs executivos e mestrados profissionais: O papel negligenciado da execução”, do autor Jorge Carneiro. Por fim, na Seção Resenha Daniel Chu traz a revisão do livro BAD BLOOD: Fraude bilionária no Vale do Silício de John Carreyrou. Ao final desta edição, apresentamos também as informações editoriais de 2018.

Boa leitura!

Maria José Tonelli1 | ORCID: 0000-0002-6585-1493

Felipe Zambaldi1 | ORCID: 0000-0002-5378-6444

1 Fundação Getulio Vargas Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

 

REFERÊNCIAS

Alcadipani, R. (2017). Periódicos brasileiros em inglês: A mímica do publish or perish “global”. RAE-Revista de Administração de Empresas, 57(4), 405-411. doi:10.1590/s0034-759020170410

Alves, M., & Pozzebon, M. (2013). How to resist linguistic domination and promote knowledge diversity? RAE-Revista de Administração de Empresas, 53(5), 629-633. doi:10.1590/S0034-759020130610

Bertero, C. O. (2011). Meio século de RAE. RAE-Revista de Administração de Empresas, 51(3), 224-226. doi:10.1590/S0034-75902011000300002

Diniz, E. H. (2017). Periódicos brasileiros da área de administração no contexto de internacionalização da produção científica. RAE-Revista de Administração de Empresas, 57(4), 357-364. doi:10.1590/s0034-759020170406

Farias, S. (2017). Internacionalização dos periódicos brasileiros. RAE-Revista de Administração de Empresas, 57(4), 401-404. doi:10.1590/s0034-759020170409

Fradkin, C. (2017). The internationalization of psychology journals in Brazil: A bibliometric examination based on four índices. Paidea, 27(66), 7-15. doi:10.1590/1982-43272766201702

Machado, A. M. N., & Bianchetti, L. (2011). (Des)fetichização do produtivismo acadêmico: Desafios para o trabalhador-pesquisador. RAE-Revista de Administração de Empresas, 51(3), 244-254. doi:10.1590/S0034-75902011000300005

Rosa, A. R., & Alves, M. A. (2011). Pode o conhecimento em gestão e organização falar português? RAE-Revista de Administração de Empresas, 51(3), 255-264. doi:10.1590/S0034-75902011000300006

The Economist. (2019, January 12-18). Red moon rising: If China dominates Science, should the world worry? p. 9.

Tonelli, M. J. (2018). Revistas científicas em Administração: O papel histórico da Revista de Administração de Empresas (RAE) na construção do campo acadêmico em administração no Brasil. Cadernos EBAPE.BR, 16(4), 509-515. doi:10.1590/1679-395173941.

 

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