RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 7, n. 23, abr-jun 1967

Editorial: 

Observações sobre o problema do planejamento

Das várias atividades que são desempenhadas pelos homens em posições administrativas, a que tem merecido maior destaque é o planejamento. A nosso ver é de interesse que se faça um breve retrospecto de seu desenvolvimento. A consulta de textos sobre administração e sobre a prática administrativa em fases recuadas do desenvolvimento industrial dos países, hoje desenvolvidos, não nos permite encontrar um tratamento adequado do problema. O planejamento era antes visto como uma contradição em termos, pois a atividade econômica, a consequentemente a atividade empresarial seriam por definição "naturais" e, portanto, auto controláveis. A aplicação de um quadro conceitual de fundamentação fisiológica à consolidação da então nova ciência econômica, fazia com que se aplicasse ao campo da atividade econômica os padrões teleológicos do determinismo biológico segundo o qual a atividade em questão não estaria sujeita à intervenção exterior. A interferência no processo abriria a porta para que se arriscasse romper a "racionalidade" do sistema que se desenvolveria otimamente pela sua própria lógica interna. Destarte, a ideia de planejar só foi aceita e gradativamente introduzida no setor da atividade econômica mediante duras e penosas experiências. Estas foram propiciadas pelas depressões que experimentava a atividade econômica definidas como "ciclos econômicos". A constelação de fatores negativos trazidos · pelas recessões pouco a pouco foram tornando insuportável a simples ideia de sua reaproximação. O acompanhamento inevitável seria negação de esquema conceitual tomado de empréstimo às ciências biológicas e a decisão de aplicar às atividades econômicas o modelo tradicionalmente utilizado nas ciências de tipo físico-matemático, ou seja, não limitar-se ao entendimento do processo, mas sempre que possível equacioná-lo matematicamente e tentar controlá-lo pela manipulação das variáveis determinantes do processo. A ideia de planejamento encontraria assim suas origens numa teoria econômica neocapitalista, mais vinculada ao "keynesianismo" e marcaria o abandono definitivo do laissez-faire e a intervenção direta do homem nos mecanismos econômicos. O "keynesianismo" foi especialmente inspirador da ação governamental exercida através Ide políticas fiscais, que abandonaram a tradicional concepção de que a função primordial e exclusiva de qualquer política fiscal seria a de fornecer receita ao Estado a fim de que este pudesse pagar as despesas decorrentes da manutenção de uma "burocracia", para que se visse na política fiscal um instrumento adequado para estimular e/ ou inibir, segundo diretrizes previamente estabelecidas, determinados movimentes do sistema. Ainda no setor governamental, podemos observar que gradativamente o Estado, particularmente nos países menos desenvolvidos, passou a assumir a responsabilidade direta pele crescimento econômico. Isto implica sua atuação não apenas na elaboração de uma política econômica, financeira e fiscal destinada a estimular a atividade do setor privado da economia, como também em intervir direta mente no processo, atuando como empresário através das grandes empresas estatais ou de economia mista. No plano empresarial cremos ter o planejamento surgido e se imposto como uma necessidade por mecanismos e causas que não divergiram fundamentalmente das que levaram à implantação do planejamento no setor governamental. Nos Estados Unidos, após os efeitos da crise que se estendeu por quase toda a década dos trinta, assistimos ao estabelecimento definitivo das grandes "sociedades anônimas" com sua configuração atual. O fim do "esforço de guerra" criou a necessidade de que se volvessem os esforços empresariais para o mercado interno, onde se teria então a fonte de receita que permitiria a própria sobrevivência da empresa. Não seria mais possível, dado o caráter gigantesco das sociedades anônimas, a complexidade de suas operações e a diversificação de características de um mercado competitivo, prosseguir com os padrões de gerência que havia predominado em épocas onde a função de produzir sobrepujava em importância a de vender. Como adequadamente foi observado por K. GALBRAITH em seu livro The Affluent Society a produção, perde importância numa economia de afluência, que tende a transferir-se para as atividades de mercadização. Estas não seriam exequíveis sem que um minucioso planejamento se implantasse que cobrisse todas as esferas da atividade empresarial, sem todavia olvidar a ênfase na mercadização que é o seu ponto de partida. Desta forma surge nos Estados Unidos e se estende por todo o sistema empresarial de tipo privado, mesmo que opere em países não desenvolvidos, a ideia do "corporate planning". O "'Corporate Planning". tem como fundamento que toda atividade empresarial deve ser planejada sob pena de não se poder alcançar a eficiência máxima desejada como objetivo fundamental da atividade da organização de tipo econômico. Não importa qual o conteúdo que se dê a esta eficiência, seja a maior lucratividade, seja o atendimento do maior número possível de consumidores (vendas máximas) obtendo-se u'a margem razoável de lucro, ou simplesmente a prestação de serviços, ela não poderia ser atingida sem o instrumento que é o planejamento.

Carlos O. Bertero

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