RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 7, n. 22, jan-mar 1967

Editorial: 

Curso de Pós-Graduação em Administração de Empresas

Na estrutura do ensino universitário brasileiro era possível observar até bem pouco tempo a ausência de cursos regulares de pós-graduação. Após os quatro, cinco ou seis anos que compunham o currículo "universitário" concluía-se o bacharelado ou a licenciatura e as atividades· seguintes dirigiam-se para o doutoramento e a livre-docência, sempre com objetivos voltados para o magistério superior. Não se entendiam os cursos realizados após obtenção do grau universitário a não ser como preparação para o magistério de nível superior. As tentativas para a implantação de cursos regulares de pós-graduação com currículos estabelecidos e duração determinada, sempre foram modestas e, por vezes, começando para encerrarem-se após duas ou três turmas. Foi nos últimos cinco anos que assistimos ao desenvolvimento de cursos de pós-graduação em caráter regular, e no ano passado a Universidade de São Paulo os regulamentou para várias de suas Faculdades. A Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, iniciou de forma· regular o seu Curso de Pós-Graduação em Administração de. Empresas em 1961 e, após um período de tentativas, a sua duração foi definitivamente estabelecida em 3 semestres para o período diurno e quatro para o noturno. São admitidos os portadores de grau universitário após entrevista e exame de seleção. Nos seus cinco anos de existência o Curso de Pós-Graduação fornece elementos para algumas observações interessantes. É significativo o fato de que a maioria dos participantes sejam portadores de grau universitário em outras áreas que não administração, seja pública ou de empresas. Aproximadamente dois terços se constituem de advogados, engenheiros e economistas, o que não tem excluído indivíduos com cabedal de conhecimentos pouco habituais no círculo tradicional de administradores como psicólogos, sociólogos e outros cientistas sociais, licenciados em seções de matemática, física, filosofia e letras da Faculdade de Filosofia. Apesar da heterogeneidade na formação universitária dos participantes, tem-se constituído um motivo de feliz surpresa o fato de todos terem sido capazes de desenvolver, decorridas as primeiras semanas do curso, um denominador comum que é o esforço para adquirir uma visão da empresa. E este elemento permanece e se aprofunda durante o curso gerando o que nos permitiríamos chamar, uma nova "mentalidade profissional". E esse é o fulcro do Curso de Pós-Graduação em Administração de Empresas, pois ele não se propôs à tarefa de formar exclusivamente elementos para o exercício do magistério superior. Ele é primordialmente um curso para preenchimento de uma lacuna no sistema universitário brasileiro que é o de formar profissionais de alto nível, e que até então permanecia descurado. Não podemos ignorar que os portadores de graus universitários, especialmente engenheiros, economistas e advogados, apesar de, em princípio, serem considerados técnicos, uma vez admitidos nas empresas, são chamados ao desempenho de funções tipicamente administrativas para as quais não foram preparados em satisfazendo as exigências curriculares de suas respectivas faculdades. O que é dado então encontrar é uma mão-de-obra que necessita de treinamento e até certo ponto de reconversão a uma realidade típica de sociedades que se industrializam, ou seja, a organização de tipo econômico. Esta tarefa vem sendo, a nosso ver, preenchida satisfatoriamente pelo Curso de Pós-Graduação em Administração de Empresas, e experiências de tal natureza, pelo seu sucesso e pela consideração das novas necessidades de força de trabalho que num contexto em processo de industrialização passa a exigir; tais experiências deveriam ser, na medida do possível, objeto de atenção para utilização em outras áreas do conhecimento com vistas à profissionalização, deixando ao passado a imagem de que cursos de pós-graduação são inevitavelmente voltados à preparação de futuros professores universitários.

Carlos O. Bertero

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