RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 6, n. 19, abr-jun 1966

Editorial: 

O silêncio do leitor

O grande acontecimento na redação da RAE, nestes últimos tempos, foi termos recebido cartas de dois leitores a respeito de um mesmo artigo publicado na Revista. A nós, que já aprendêramos a viver na quase desesperança de receber comunicações de nossos leitores, essas duas cartas verdadeira "cascata" - serviram não só para nos estimular a sede por mais, como também para nos levar à especulação sobre as razões pelas quais nosso leitor é tão silencioso. Naturalmente, dada a especialização da RAE, não poderíamos esperar um volume de cartas como o que se encontra em outros veículos que, mesmo no campo da Administração, são mais acessíveis e genéricos em seu conteúdo. Tampouco poderíamos esperar que nosso leitor médio tivesse mais inclinação por escrever cartas do que os patrícios em geral, que têm notória falta de hábito de comunicar-se por escrito com regular frequência. Logo nos pareceu, porém, que, ainda que levássemos em conta essas duas limitações, as comunicações de nossos leitores deveriam ser muito mais constantes. Analisamos o artigo sobre o qual dois leitores haviam tecido comentários: tratava-se de trabalho de comparação da teoria com a prática de Relações Públicas nas empresas nacionais, com base em estudo da literatura e em pesquisa de campo realizada pelo autor, que concluía por adotar tese polêmica sobre a matéria. Seria o caráter polêmico do artigo seu "segredo" de estímulo à comunicação? Mas na verdade a RAE sempre foi veículo polêmico e até mesmo revolucionário. Neste número 19, por exemplo, não só apresentamos a tradução de artigo clássico norte-americano que divulga as noções básicas de programação "linear" ou "matemática" - verdadeira novidade entre nós - como publicamos trabalhos originais em que se analisam aspectos e técnicas da moderna administração de recursos humanos, num caso pelo exame da utilidade dos benefícios oferecidos por nossas empresas a seus funcionários do ponto de vista dos funcionários, noutro pela comparação da curva salarial de uma empresa com a curva salarial do mercado e, em outro ainda, pela justificativa da tese de que nossos administradores devem aprender a delegar autoridade para garantir a descentralização e, portanto, o crescimento de suas empresas. Somente esses exemplos são suficientes para demonstrar que os artigos por nós publicados têm caráter verdadeiramente revolucionário, apesar da linguagem comedida em que são vasados e do intuito claro dos autores de não fazerem polêmica por demagogia nem proporem inovações para simples agitação. Falta-nos, portanto, explicação melhor para o silêncio do leitor. Ocorreu-nos que talvez fosse oportuno deixar bastante claro o quanto sentimos não poder manter com ele um diálogo mais constante. Em alguns veículos de divulgação essa falta é remediada de modo simples: forjam-se cartas, para se dar a ideia ou se ter a ilusão de comunicação ativa. Sob pena de não poder contar com nenhuma comunicação de nossos leitores, achamos essa providência inaceitável. Temes agora renovada esperança de que o diálogo se intensifique. As duas cartas recebidas a respeito de um mesmo artigo no-la justificam. Como muito bem apontam todos os mestres de comunicações, é sempre do intercâmbio de ideias que nasce a verdadeira comunicação. Cômodo seria para nós isolar-nos em nessa "torre de marfim" e "deitar banca". Mas essa facilidade não nos ilude. Aqui fica, portanto, reiterado nosso convite à comunicação do leitor. Oxalá não venha ele a ser mais um monólogo da RAE sobre as "razões do silêncio do leitor".

Yolanda F. Balcão

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