RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 56, n. 4, julho-agosto 2016

Editorial: 
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ACADEMIA E PRÁTICA

Nos corredores das escolas de business e de administração, é sempre possível ouvir muitas conversas sobre a distância entre as pesquisas e artigos acadêmicos e a sua aplicabilidade nas empresas. Essa não é propriamente uma questão nova, mas que vale ser retomada. O tom das conversas traz junto uma crítica e, se não uma desconsideração, alguma desconfiança em relação a essas publicações, bem como a ideia de que não há qualquer utilidade nesses trabalhos. Nem tudo que se faz em academias − não só em administração como também em outros campos de conhecimento − vale a pena. Mas que as organizações não possam se beneficiar das pesquisas acadêmicas é outra história. Além disso, nem tudo que se faz nas empresas deveria ser louvado (Ansoff, 1967). Apenas para dar um exemplo do momento, as pesquisas apontam que mulheres em boards trazem benefícios para as empresas, inclusive na questão corrupção, mas, ainda assim, sua presença é bastante reduzida no mundo todo. As empresas também produzem práticas que devem ser criticadas, e nem estou me referindo aqui à crítica no sentido posto pela divisão Critical Management Studies (CMS) da Academy of Management, nem ao debate sobre as novas metas do capitalismo consciente. Apenas do ponto de vista da produtividade das empresas, pragmaticamente, muitas ações são questionáveis, especialmente no Brasil, onde esse afastamento da academia é ainda mais forte.

Além disso, em geral, essas conversas são estabelecidas entre professores que parecem habitar dois planetas diferentes: o da teoria e o da prática. O conhecimento em administração inclui, ainda, um terceiro elemento: as publicações pop-management, aparentemente práticas, mas desprovidas de substância, ainda que muito difundidas e apoiadas em conhecimento “científico” que deixa larga margem para dúvidas. Afinal, de qual ciência nós estamos mesmo falando? Como a própria palavra diz, teorias são abstrações sobre a realidade; elas não são, evidentemente, a realidade prática, mas são as teorias que nos permitem generalizações sobre fenômenos e, eventualmente, nos levam às práticas. Até pouco tempo atrás, o apêndice do corpo humano era considerado um órgão desprovido de função e sua retirada, inócua. Entretanto, uma revisão da “teoria” sobre a função do apêndice mostra que não é bem assim. Além disso, as teorias são sempre relativas, já que a base de qualquer ciência é sempre a dúvida, ainda que certezas sejam preferidas pela maioria. A despeito das críticas que possam ser feitas ao conhecimento científico, parece que os humanos melhoraram suas condições de vida no planeta a partir de seus desdobramentos. De fato, me parece, essa é uma falsa dicotomia: teorias e práticas estão sempre absolutamente interligadas. Pode ser de modo mais ou menos explícito, mas qualquer ação prática exercida nas organizações depende de um “pressuposto” conceitual. Isso também não é novo; McGregor (1960) já discutiu o conceito há mais de meio século. E o próprio conceito de prática tem sido alvo de muitas pesquisas, portanto pode e deve ser questionado. Há muitas teorias sobre o que é prática, como mostram Chia e MacKay (2007) no campo da administração. Mas sempre há lugar para conhecimento de qualidade, teórico ou prático.

Bem, tudo isso foi uma introdução para apresentar o quarto número da RAE, que traz o resultado do Fórum Transnational governance regimes in Global South: Multinationals, states and NGOs as political actors, organizado por Glenn Morgan, Marcus Vinícius Peinado Gomes e Paola Perez-Aleman. Como pede um fórum que foi global e localmente organizado, temos aqui uma edição especial, com diversos artigos que tratam de questões práticas, cotidianas e extremamente relevantes para as organizações e para além delas, quando se trata de governança global. Esses artigos evidenciam como a pesquisa tem impacto na prática, ainda que, por vezes, esse impacto possa dar-se de maneira um pouco mais demorada do que as respostas imediatas em um ou dois cliques que encontramos nos “oráculos” do nosso tempo. As seções Pensata, Resenha e Indicações Bibliográficas contribuem na mesma direção. É um prazer apresentar este número. Parabéns e obrigada aos editores convidados do Fórum.

Boa leitura!

MARIA JOSÉ TONELLI | Editora-chefe
Professora da Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo – São Paulo – SP, Brasil

REFERÊNCIAS

Ansoff, I. (1967). Handbook of business administration, research and development planning. New York, EUA: McGraw-Hill.

Chia, R., & MacKay, B. (2007). Post-processual challenges for the emerging strategy-as-practice perspective: Discovering strategy in the logic of practice. Human Relations, 60(1), 217-242. doi:10.1177/0018726707075291

McGregor, D. (1960). The human side of enterprise. New York, EUA: McGraw-Hill.

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