RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 55, n. 5, setembro-outubro 2015

Editorial: 

ACESSO ABERTO: UM TEMA A SER MAIS BEM EXPLORADO

Recentemente, um blog dedicado a apresentar uma visão crítica sobre o acesso aberto questionou o papel da disseminação científica das bases SciELO e Redalyc (disponível em: <http://scholarlyoa.com/2015/07/30/is-scielo-a-publication-favela>), ambas de origem e foco na América Latina. Esse mesmo blog já havia causado polêmica ao apontar uma lista de publishers predatórios, empresas que exploram o mercado de publicações científicas promovendo um modelo em que os autores pagam para garantir acesso aberto aos leitores (disponível em: <http://scholarlyoa.com/publishers>). A despeito das críticas contundentes terem (ou não) algum fundamento e promoverem uma agenda com foco negativo envolvendo um tema emergente como esse, infelizmente o blog confunde mais do que esclarece. O simples fato de SciELO e publishers predatórios praticarem algum tipo de “acesso aberto” e, portanto, estarem sendo usados como exemplos de “problema” já demonstra que dificilmente haverá convergência sobre esse conceito e suas implicações.

“Acesso aberto”, não apenas no mundo da publicação científica (vide o exemplo do software livre), abrange tanto aspectos econômicos (capital) quanto ideológicos (liberdade). Sem desmerecer o peso e a relevância desses aspectos, é importante promover também a discussão sobre as questões de gestão (modelos de negócio) das publicações científicas com acesso aberto.

De fato, o que pode ser identificado atualmente como “acesso aberto” em publicações científicas é um modelo de negócio em que o leitor não precise pagar para ler um artigo científico. Esse modelo emerge num ambiente dominado por um em que o autor é quem não paga. Mas esse não é certamente um jogo apenas de autores e leitores. Instituições de ensino e pesquisa e organismos de fomento, por exemplo, costumam pagar para manter o acesso aberto a ambos os lados. Algumas das grandes editoras, tradicionalmente defensoras do acesso não aberto aos leitores, argumentam que pretendem praticar (ou já praticam) o modelo de acesso aberto aos leitores, desde que “alguém” pague.

Independentemente de quem venha a pagar, o fato é que manter um processo de publicação científica com qualidade implica custos relevantes. Para os periódicos brasileiros, que aderem compulsoriamente ao modelo de acesso aberto aos leitores, a discussão fica ainda mais complicada, principalmente em comunidades acadêmicas em que as alternativas para cobrar os autores não são bem-vistas. Assim, na maioria das vezes, quem paga acaba sendo uma instituição de ensino e pesquisa, pois sobram poucas alternativas para cobrir esses custos. Como não há retorno financeiro direto, o que essas instituições estão dispostas a investir nos periódicos em geral não cobre as necessidades para manter um padrão de qualidade exigido para colocá-los no patamar comparável ao dos periódicos internacionais vinculados a grandes editoras comerciais.

Nesse cenário nos sobram algumas alternativas. Uma delas, defendida com vigor pelo blog mencionado anteriormente, é que entreguemos nossos periódicos às grandes editoras, pois só elas teriam estrutura para garantir a qualidade necessária à disseminação do conhecimento científico. É claro que, nesse caso, passaríamos por uma redução drástica do número de periódicos no país, situação que encontra defensores em nosso meio. Outra alternativa seria uma mudança na política de financiamento por órgãos de fomento, que gastam um valor nada desprezível comprando bases de periódicos, os quais nem todos nos interessam. Outra ainda foi aventada em entrevista de um dos fundadores do SciELO, em que afirma: “SciELO terá que se tornar um efetivo publisher” (disponível em: <http://blog.scielo.org/blog/2013/07/15/entrevista-rogerio-meneghini>). Nesse caso, talvez teríamos uma editora nacional com estrutura capaz de concorrer com as internacionais. Importante notar que essas alternativas não são autoexcludentes.

Para além da discussão econômica e ideológica e das características regionais do mercado de publicação científica, temos que enfatizar que a produção e, por consequência, a publicação científica precisam avançar em novas frentes. Num momento em que tanto se discutem modelos de negócio antenados com a nova era de acesso digital amplo, o debate de temas como cocriação, mercado multi-lado e economia compartilhada, por exemplo, poderia também contribuir para ajudar a entender melhor os modelos de acesso aberto em periódicos científicos. Pesquisadores em Administração tem aqui um bom tema para explorar.

Nesta quinta edição, publicamos nove artigos inéditos. “Implementation of Green IT in organizations: a structurational view” estuda a dinâmica de implementação de TI verde. “Impacto da distância social nas transgressões entre empresas e consumidores” contribui para o entendimento dessa relação. “Gestão de recursos do EaD: como adequar as tecnologias aos perfis de assimilação” analisa o aprendizado a partir de tipos de tecnologia de educação a distância. “Remontando a rede de atores na implantação de um sistema de informação em saúde” investiga, baseando-se na Teoria Ator-Rede, o comportamento de envolvidos no processo de implantação de um sistema de informação em um hospital público. “Determinants of the success of global and local brands in Latin America” aborda o sucesso de marcas globais e locais por meio da categorização de produtos. “Evaluating the efficiency progress with technology in a Spanish hotel chain” endereça a eficiência da produtividade de redes hoteleiras na Espanha no período de crise. “Métodos colaborativos na gestão de cadeias de suprimentos: desafios de implementação” mostra como esses métodos influenciam a competitividade das empresas. “Uma proposta de investigação sobre o uso de software no suporte à inovação em serviços” examina o impacto da inovação no setor por meio da tecnologia da informação e comunicação. “A cross-country study on the determinants of bank financial distress” pesquisa falências bancárias em blocos internacionais como Nafta e União Europeia.

Completam esta edição a resenha sobre o livro Sete pecados capitais nas organizações e as indicações bibliográficas sobre análise de dados quantitativos e economia comportamental.

 

Boa leitura a todos!

Eduardo Diniz

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