RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 55, n. 2, março-abril 2015

Editorial: 

TRADUÇÃO AUTOMÁTICA, TERCEIRO ESTÁGIO DA REVOLUÇÃO DIGITAL DOS PERIÓDICOS

A RAE publica em francês, pela primeira vez em sua história, nesta edição. Já vínhamos desde 2009 promovendo o espanhol como uma das nossas línguas de publicação, junto com o português e o inglês, mas temos ainda restrição de custos para incluir novas línguas, como o francês. Entretanto, abrimos uma exceção e consideramos o argumento dos organizadores do Fórum “Challenging Anglo-Saxon Dominance in Management and Organizational Knowledge”, publicado nesta edição especial, cientes da contribuição do debate em língua francesa sobre esse tema. 

Soma-se, portanto, mais um ponto ao esforço que a RAE tem feito para a valorização do multiculturalismo na publicação científica. Aceitamos o risco de incluir o francês nesta edição, ainda que excepcionalmente, por estarmos antecipando o que entendemos ser o terceiro estágio da revolução digital dos periódicos científicos.

No seu primeiro estágio, essa revolução digital já promoveu grandes mudanças no mundo da publicação científica ao elevar o impacto dos periódicos considerados “não elite” (sobre esse tema, ver o artigo “Rise of the rest: the growing impact of non-elite journals”, publicado em 9 de outubro de 2014, na arXiv, por Acharya et al.) e colocar no centro do debate acadêmico a questão do acesso aberto (vale ler o editorial da tradicional Science, de 19 de setembro de 2014, sobre a motivação para criar a sua versão aberta).

Um segundo estágio da revolução digital nos periódicos científicos está ainda em seu início. A facilidade de se reproduzirem cópias digitais mudou as práticas dos pesquisadores e também dos periódicos, incentivando um aprofundamento na discussão sobre plágio (e autoplágio) e a integridade da produção científica (interessante artigo sobre o tema “Not all plagiarism requires a retraction”, de Praveen Chaddah, publicado na Nature em 9 de julho de 2014). A RAE, sintonizada com o estado da arte no setor, recém implantou um sistema antiplágio, assunto que comentaremos com mais detalhes futuramente.

As ferramentas de tradução podem representar o início deum terceiro estágio da revolução digital no universo dos periódicos acadêmicos. Esse terceiro estágio ainda é embrionário e pouco perceptível. De fato, há muitas dúvidas sobre a eficácia das traduções automáticas, mas é notável a evolução dessas ferramentas nos últimos anos. Se não estamos no ponto em que as traduções feitas por ferramentas automáticas possam ser consideradas confiáveis, não é difícil antecipar um tempo em que teremos acesso ao que pensam os que não falam a mesma língua que nós, sem necessariamente termos de usar o atalho comum do inglês.

Àqueles que acreditam que corremos o risco de ficar “invisíveis” ao aderirmos – ainda que eventualmente – a uma língua que não o inglês, com a velocidade de evolução dessas ferramentas, não seria absurdo pensar que, em mais alguns anos, teremos tradução de alta qualidade disponível a custo baixo. E, quando isso acontecer, a incorporação de ferramentas de tradução automática tornar-se-á essencial ao ambiente digital dos periódicos científicos.

Enquanto não atingimos esse patamar de eficiência na tradução automática, temos que considerar as questões de custo, entre outras, para lidar com um ambiente multilingual. Por isso, continuaremos limitados às nossas atuais três línguas. Quiçá, num futuro não tão distante, consigamos ampliar o leque de línguas e culturas nas quais temas emergentes de gestão possam ser debatidos com desenvoltura e propriedade e, muito importante, sem perda na qualidade da compreensão.

Abre esta edição o artigo de apresentação do Fórum “Challenging Anglo-Saxon Dominance in Management and Organizational Knowledge”, assinado por seus organizadores, seguido pelos quatro artigos aprovados, “An anti-management statement in dialogue with critical Brazilian authors”, “Resgatando o nexo governança-gestão internacional: por uma nova ordem em gestão”, “Cotidiano e história: construindo novos olhares na administração” e “L’apport de la sociologie pragmatique française aux études critiques en management”. Completam o Fórum dois ensaios convidados, publicados na seção Pensata: “Picnic on a frozen river: challenges for genuine management studies in Spain” e “Le champ des études organisationnelles : le regard critique d’un chercheur plurilingue”, respectivamente de autoria dos professores Carlos J. Fernández Rodríguez, da Universidad Autónoma de Madrid, e Jean-François Chanlat, da Université Paris-Dauphine.

Publicamos, ainda, os artigos “Elementos para discussão da escravidão contemporânea como prática de gestão”, que analisa o trabalho escravo no Brasil, “Fatores que afetam a transferência da aprendizagem para o local de trabalho”, que apresenta um estudo em uma organização portuguesa, “Crimes corporativos e estudos organizacionais: uma aproximação possível e necessária”, que faz uma síntese de pesquisas sobre um tema pouco explorado na área, e “‘E se colocar pimenta?’: a construção empreendedora da Chilli Beans”, com a construção de uma narrativa sobre o marketing empreendedor de uma famosa marca do mercado.

Completam esta edição, também dialogando com o tema do Fórum, uma resenha sobre o livro "Organizations in time: history, theory, methods" e as indicações bibliográficas sobre estudos pós-coloniais e diálogos interculturais e sobre estudos organizacionais no Sul Global e as perspectivas latino-americanas.

Tenham uma boa leitura!

EDUARDO DINIZ | EDITOR CHEFE

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