RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 54, n. 4, julho-agosto 2014

Editorial: 

Recentemente, ficamos sabendo que Zigmunt Bauman, respeitado intelectual polonês, criador do conceito de “modernidade líquida”, reagiu a uma acusação de plágio afirmando que intelectuais de prestígio podem relevar as regras de publicação científica e desprezar, por exemplo, critérios de citação exigidos pelos manuais das revistas acadêmicas. A acusação baseava-se numa denúncia feita por um estudante de doutorado que, analisando o último livro de Bauman, encontrou diversas passagens que são, na verdade, cópias da internet, principalmente da Wikipedia. Apesar de mencionar as fontes, Bauman não usou nenhuma das regras básicas para indicar que os textos não eram originalmente dele.

Esse episódio marca um debate importante no meio acadêmico. Muitos reclamam de regras excessivas exigidas pelos periódicos, e alguns autores argumentam que são cerceados no seu direito de livre expressão do pensamento. Podemos organizar essa discussão em níveis diferentes para entender melhor o problema.

No nível mais crítico, estão situações semelhantes ao caso Bauman relatado acima. Citações são importantes para os leitores poderem identificar – e checar – as fontes utilizadas pelos autores e, assim, avaliar melhor as bases de como certa linha de raciocínio foi desenvolvida. Independentemente da questão ética, a citação correta é, portanto, um instrumento para o leitor, e o autor deve submeter-se a ela, por respeito a quem ele quer comunicar seus argumentos. No limite ético, movidos pela pressão do produtivismo, alguns apenas querem “engordar” seus textos com argumentos alheios, como se fossem seus. Na RAE, temos testado ferramentas de identificação de plágio, e os resultados não têm sido muito positivos para os autores. Em breve, nenhum texto entrará em processo de avaliação sem essa checagem automática, hoje ainda feita informalmente pelos editores científicos e avaliadores.

Num nível menos crítico, diversos autores – com frequência os de mais prestígio – reclamam da rigidez das revistas, que exigem limite de palavras para que um texto entre no processo de avaliação. Esses autores partem do princípio de que suas ideias não podem ser expressas apenas em parte e de que a limitação de tamanho poda seus raciocínios. Em nenhum momento, esses autores estão considerando que o leitor não necessariamente está interessado em ler textos extensos, em geral cheios de hipérboles estilísticas, desnecessárias para quem quer ir direto ao ponto central discutido. Na RAE, temos alguma flexibilidade, aceitando uma variação de 10%; mesmo assim, os que reclamam acham que somos duros demais. Acreditam que, devido à sua ampla experiência no campo, deveriam entrar na categoria das exceções, afinal eles não são como a maioria.

Outros autores questionam algumas exigências que consideram esdrúxulas, como inserir as tabelas no final do texto ou vetar as notas de rodapé. Fizemos recentemente um teste na RAE e confirmamos que 70% dos autores que não observam essas regras – explicitadas no Manual da Redação – são rejeitados no desk review, ou seja, há uma relação muito forte entre a qualidade do texto submetido e a atenção aos critérios formais. Como recebemos mais de 600 artigos por ano, essa triagem por formato é indispensável para tornar mais eficiente o trabalho interno de avaliação, separando o que tem conteúdo relevante do que apenas quer tentar ser publicado, independentemente de apresentar ou não alguma contribuição para a comunidade científica. Nesse caso, as regras formais servem para selecionar os autores que leem o Manual da Redação dos que ainda não aprenderam as regras básicas da publicação científica. Como tudo isso significa um oneroso custo para todo o processo de avaliação, rejeitar artigos de menor qualidade nas fases iniciais permite dedicar mais esforço da equipe de redação àqueles que realmente têm potencial de publicação.

Em suma, muitos autores não entendem que um periódico trabalha para os leitores. É um canal que permite a comunicação com eles, que merecem receber material original e de qualidade. Para aqueles com muita experiência ou para quem está apenas começando, as regras devem ser as mesmas, em nome da qualidade e do respeito ao leitor. Que o caso Bauman sirva de exemplo para todos nós.

Nesta edição da RAE, publicamos oito artigos inéditos. “What is the use of a single-case study in management research?” defende o uso de estudo de caso único como método de pesquisa na área de gestão. “O marketing social e a promoção de mudanças estruturais no aleitamento materno” investiga a amamentação sob a perspectiva do Modelo Ecológico. “O papel do balanced scorecard na gestão da inovação” relaciona o BSC ao processo de inovação de 121 empresas. “Satisfacción: determinante de la familiaridad del destino turístico” verifica se a satisfação do turista é consequência do benefício funcional, hedônico e simbólico obtido no destino. “Otimização de portfólios: análise de eficiência” avalia o comportamento de uma carteira de ativos selecionados por meio da Análise Envoltória de Dados (DEA), otimizada pela abordagem de Sharpe. “Compartilhando conhecimento em projeto automotivo: o EcoSport da Ford do Brasil” é um estudo de caso sobre o compartilhamento de conhecimento e sua efetividade no desenvolvimento de um projeto. “Imersão social na cadeia de suprimentos e seu efeito paradoxal no desempenho operacional” analisa os impactos da imersão relacional e estrutural no desempenho operacional das firmas, medida em termos de produtividade e ganhos em qualidade. “Valores relativos ao trabalho de pesquisadores em uma organização brasileira” aborda os valores relativos ao trabalho de pesquisadores em uma firma brasileira de P&D por meio da definição de suas prioridades axiológicas laborais.

Completam esta edição a pensata “The social impact of research in business and public administration: a proposal for a model of analysis”, assinada por Giovanna de Moura Rocha Lima e Thomaz Wood Jr; uma resenha sobre o livro “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”, de Michael J. Sandel; e as indicações bibliográficas sobre “História social dos esportes” e “O futebol sob a ótica das ciências sociais”.

Tenham todos uma boa leitura!
Eduardo Diniz

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