RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 54, n. 3, maio-junho 2014

Editorial: 

Enquanto investimos em indicadores do impacto acadêmico da produção científica, ainda carecemos de indicadores consolidados para medir o impacto social dessa mesma produção. De fato, os principais indicadores utilizados para avaliar a repercussão da produção científica (Fator de Impacto, Índice H etc.) têm foco na avaliação interna, ou seja, como a própria comunidade acadêmica reconhece a relevância dessa produção pelos pares. Concretamente, esses indicadores consagrados são essencialmente utilizados como critério para dividir o escasso recurso de pesquisa disponível, pois criam uma hierarquia da produtividade acadêmica na qual se baseia a fila para o acesso a verbas.

Não temos indicadores muito precisos para avaliar como nossas pesquisas contribuem, por exemplo, para a melhoria da qualidade de vida, para aumento da performance empresarial ou mesmo do desempenho do setor público. Pode-se argumentar, com razão, que a pesquisa não tem necessariamente aplicação imediata, e muitos dos resultados que a academia nos entrega hoje só terão impacto décadas adiante. Entretanto, também não sabemos se a avaliação interna produzida pelos índices que já consagramos manterá a mesma relevância ao longo do tempo e continuamos sem uma boa resposta para o desafio de monitorar e tomar decisões com base nos resultados de nossa produção para nossos stakeholders externos no curto, médio e longo prazos.

Especificamente na área de Administração, uma ciência aplicada por definição, a falta de bons indicadores de nosso impacto social deixa-nos particularmente vulneráveis a críticas sobre a verdadeira relevância social de nossa pesquisa. Um recente artigo publicado no influente The New York Times alimenta a polêmica, afirmando que alguns dos principais pensadores do planeta são professores universitários, mas a maioria deles não é mais relevante para os “grandes debates” de hoje. Concorde-se ou não com a opinião expressa nesse artigo, que, diga-se, poupa os professores de Economia da crítica, ela nos provoca para uma reflexão.

Tomemos como exemplo as pautas da grande imprensa, por dever de ofício, mais sintonizada com os tais “grandes debates”, ainda que esses também possam ser taxados de efêmeros. Em meio à grave crise de gestão em que vivemos – basta mencionar a enorme quantidade de recursos humanos, materiais e ambientais desperdiçados tanto pelo setor público quanto pelo privado – raramente pesquisadores da área de Administração são chamados para expor ao grande público como o resultado de suas pesquisas poderia contribuir para mitigar esses problemas. É mais comum encontrarmos executivos e políticos do que pesquisadores opinando nesses espaços. Seria esse um sinal do baixo reconhecimento da relevância da pesquisa em Administração?

Enfim, embora não seja uma tarefa simples, é primordial que passemos a nos dedicar à relevância social da nossa pesquisa, tanto quanto temos nos esforçado para avaliar o seu impacto no âmbito exclusivo da academia. Certamente, a discussão sobre a criação de indicadores de impacto social estará na mesa de debates.

Nesta edição da RAE, publicamos seis artigos inéditos. “Fragmentação do conhecimento científico em Administração: uma análise crítica” discute a fragmentação da ciência por meio da interface entre os campos de Operações e de Recursos Humanos. “Earnings management and economic crises in the Brazilian capital market” verifica a hipótese de que, durante crises econômicas, as empresas listadas no mercado de capitais do Brasil tendem a adotar práticas de gerenciamento de resultados. “Brand equity in the Pakistani hotel industry” identifica a inter-relação das dimensões de valor de marca baseadas no cliente no ramo de hotelaria. “Internet e participação: o caso do orçamento participativo digital de Belo Horizonte” investiga as representações sociais que emergem da participação pública mediada pelo uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). “Empreendedorismo, marginalidade e estratificação social” analisa o estrato social de origem de empreendedores industriais e seu padrão de mobilidade intergeracional. “Key factors of process maturity in English-speaking Caribbean firms” é um estudo sobre determinantes-chave da maturidade de processos em pequenas empresas desenvolvedoras de software.

Completa a edição uma homenagem ao “Sociólogo das Organizações”, professor Fernando C. Prestes Motta, que pode ser conferida nos textos “Tributo a Fernando C. Prestes Motta: um acadêmico e sua obra docente”, de Maria Ester de Freitas, e “Poder e resistências nas organizações: a propósito das contribuições de Fernando Prestes Motta”, de Liliana Segnini e Rafael Alcadipani.

 

Tenham todos uma boa leitura!

Eduardo Diniz

 

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