RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 53, n. 4, julho-agosto 2013

Editorial: 

 

ÉTICA E BOM SENSO CONTRA O PRODUTIVISMO

A Redação da RAE foi recentemente questionada sobre se aceitaríamos segunda versão de artigo anteriormente publicado, seja em outra língua ou com o texto modificado. O argumento é que essa prática poderia estar se disseminando em nossa comunidade, fruto da pressão produtivista que, frequentemente, avalia mais a quantidade do que a qualidade das publicações de um autor.

Embora a resposta possa ser um óbvio não, vale a pena entrar um pouco mais em detalhe nessa discussão. Em primeiro lugar, é preciso que os periódicos se distanciem dessa lógica produtivista, sem desprezar a importância dos processos de avaliação da produção científica, particularmente relevantes na definição de distribuição dos escassos recursos de pesquisa. Embora tenham compromissos claros com os autores que publica, é importante lembrar que os periódicos científicos devem, também, sustentar o compromisso fundamental com seus leitores e com os princípios da disseminação do conhecimento de maneira ética.

Em outras palavras, os periódicos científicos não são apenas instrumento para aferir produção de pesquisadores. Temos compromisso com nosso leitor, que, em algum momento, pode se interessar pela reprodução, em sua própria língua, de um artigo originalmente publicado alhures. Nesse caso, fica preservado o compromisso ético da disseminação do conhecimento, se o artigo for identificado explicitamente como uma reprodução e não for computado duplamente para o autor, como se fosse uma nova produção. Assim, o compromisso do periódico é com seus leitores, e não com a lógica do produtivismo.

Um segundo caso é o do artigo ligeiramente modificado. Por que não extrair mais do que um artigo de investigações diferentes feitas sobre uma mesma base teórica, por exemplo? Mais uma vez, temos que deixar de lado a lógica do produtivismo. Os periódicos querem sempre que cada um de seus artigos apresente alguma contribuição significativa. Se os autores dividem sua pesquisa em partes, de tal forma que cada uma delas tenha uma contribuição clara, ótimo. Afinal, pesquisa relevante demanda tempo, e resultados podem vir mesmo em etapas. Entretanto, se as duas partes puderem compor uma análise mais completa e produzir uma contribuição ainda mais significativa do que aquela advinda de etapas diferentes da pesquisa, melhor ainda. Qualquer editor vai preferir uma única contribuição completa a duas parciais. Mais uma vez, o que importa é o interesse dos leitores e o valor do conhecimento disseminado.

Há quem argumente, ainda, que os periódicos deveriam ser mais explícitos em suas normas de publicação sobre as condições nas quais seriam aceitas (ou não) as tais versões modificadas. Claro que devemos sempre incrementar a parte de informações aos autores, explicitando, com o máximo de clareza, a linha editorial do periódico, e a RAE está atenta e em constante aperfeiçoamento das orientações para seus colaboradores, mas é bom lembrar que cada caso é um caso. Mais do que qualquer regra, ética e bom senso são o melhor remédio contra o produtivismo.

Em aperfeiçoamento constante, a RAE inaugura um novo projeto gráfico nesta edição, partindo de um benchmarking com revistas científicas internacionais e buscando uma comunicação visual mais atraente para os leitores.

Nesta quarta edição, publicamos seis artigos inéditos. “Como entender a vaidade feminina utilizando a autoestima e a personalidade” investiga a influência da autoestima e das variáveis de personalidade feminina na propensão em buscar cirurgias plásticas. “Negociação com informação privilegiada e retorno das ações na BM&FBOVESPA” identifica a probabilidade de que ações sejam negociadas na BM&FBOVESPA com informação privilegiada e a relação dessas transações com o retorno acionário. “Nostalgia, anticonsumo simbólico e bem-estar: a agricultura urbana” estuda, por meio de levantamento teórico, o significado da agricultura urbana como fenômeno de consumo. “Influência da conexão política na diversificação dos grupos empresariais brasileiros” traz a abordagem da economia política como alternativa para explicar a diversificação dos grupos empresariais. “El efecto de la triple hélice en los resultados de innovación” pesquisa a relação entre a capacidade de inovação das empresas e a obtenção de informação por meio da cooperação com diversos atores. “Governamentalidade empresarial e saberes ADM” discute a noção de governamentalidade empresarial como uma espécie de mentalidade que governa a todos.

Completam esta edição a pensata “Universidade corporativa: gênese e questões críticas rumo à maturidade“, assinada por Claudio de Moura Castro e Marisa Eboli; uma resenha sobre o livro A mais pura verdade sobre a desonestidade; e as indicações bibliográficas sobre bem-estar e felicidade, e sobre crimes corporativos.

Tenham uma boa leitura!

 

Eduardo Diniz

Editor chefe

 

 

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