RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 53, n. 3, maio-junho 2013

Editorial: 

 

Na busca constante pelo aperfeiçoamento de seus processos editoriais e pela melhoria da qualidade dos artigos que publica, com o objetivo de contribuir com a comunidade acadêmica de Administração de Empresas, a RAE tem desenvolvido vários estudos sobre seu acervo cinquentenário. O último deles, disponibilizado na íntegra, é sobre a meia-vida dos artigos publicados na revista entre 1997 e 2002.

A meia-vida de um artigo diz respeito ao tempo decorrido para que ele receba metade de todas as citações que terá ao longo de toda a sua existência. É claro que é um conceito baseado em uma estimativa, pois, em teoria, um artigo pode continuar a receber citações indefinidamente. Na prática, entretanto, a maioria dos artigos começa a receber citações a partir do ano de sua publicação (ano zero), e, se for um artigo realmente relevante, a comunidade o reconhecerá como tal, aumentando gradativamente o número de citações, até atingir um pico, em um determinado ano, a partir do qual esse número começa a declinar, ano a ano, até passar a ser citado apenas episodicamente.

Como os critérios de avaliação da relevância dos pesquisadores e dos periódicos são construídos com base no que se convencionou chamar de “impacto”, ou seja, sua capacidade de ser citado por outros, entender o conceito de meia-vida de artigos é essencial. Particularmente porque, hoje, uma das medidas mais importantes dessa relevância está associada ao conceito de “fator de impacto”, em especial àquele calculado por uma empresa que mantém em sua base alguns dos periódicos reconhecidos como referências entre as várias áreas do conhecimento.

Interessante notar que a meia-vida de artigos das áreas de Ciências Sociais é significativamente maior do que a daqueles das áreas conhecidas como hard sciences. Física, Engenharias e áreas biológicas possuem, em geral, meia-vida abaixo dos cinco anos. Áreas de Ciências Sociais possuem, por sua vez, meia-vida acima de oito anos. Isso significa que os artigos das áreas que possuem meia-vida mais longa só ficam “maduros” e atingem seu pico de citações mais tarde. Entretanto, o cálculo do fator de impacto de todas as áreas, hard ou soft sciences, tem como base a mesma “janela de tempo”. O resultado é que as áreas hard possuem, invariavelmente, fator de impacto maior do que as áreas soft. Isso quer dizer que, independente da sua importância, a forma de cálculo as favorece.

O cálculo da meia-vida dos artigos da RAE comprova o perfil da área em que está inserida, pois ficou em 8,25 anos, na média, para o período analisado. Por isso, também, só foi calculada a meia-vida para artigos publicados até 2002, pois os mais recentes ainda não teriam atingido a sua “maturidade” em termos de citações.

Esse cenário, entretanto, pode estar mudando. Um outro índice é o percentual de artigos citados no ano de sua publicação, que indica a velocidade com que os artigos são incorporados por outros pesquisadores em seus trabalhos. Dos 45 artigos publicados pela RAE em 2012, 18% foram citados no mesmo ano. Para fazermos uma comparação, em 2002, apenas 8% dos artigos publicados foram citados no mesmo ano. Há três fenômenos que podem ajudar a explicar essa mudança. Em primeiro lugar, a adoção do acesso aberto e imediato ao conteúdo dos artigos publicados pela RAE, política adotada a partir de 2004. Em segundo lugar, a política de diversos periódicos, inclusive da RAE, de demandar que os artigos incluam referências recentes (normalmente, dos últimos cinco anos) em sua revisão de literatura. Também pode estar contribuindo para a mudança a pressão por publicação a que os autores têm sido submetidos, o que induz à constante atualização em um ambiente acadêmico cada vez mais competitivo.

Futuramente, poderemos avaliar o impacto dessas mudanças no cálculo da meia-vida dos artigos da RAE. Pretendemos voltar a analisar esses cálculos no futuro, para permitir que pesquisadores façam estudos mais aprofundados sobre o efeito de políticas científicas sobre o comportamento dos pesquisadores e o seu resultado no impacto dos periódicos. Saberemos, então, se a meia-vida dos artigos da área de Ciências Sociais terá se tornado mais comparável a outras áreas acadêmicas com mais tradição nas métricas científicas.

Nesta edição da RAE, publicamos seis artigos inéditos. “Representações do trabalho: estudo sobre confinamento na indústria petrolífera” é um estudo exploratório sobre a influência do sistema de trabalho confinado nas representações do contexto organizacional e nos comportamentos sociais dentro e fora do ambiente de trabalho. “Ajustamento intercultural de executivos japoneses expatriados no Brasil: um estudo empírico” verifica o ajustamento intercultural de executivos vindos do Japão, por meio de pesquisa qualitativa com 37 profissionais em 21 empresas de diversos setores no Brasil. “Paradoxo de inovação no cluster do vinho: o caso da Região Demarcada do Douro” investiga a problemática da inovação no âmbito do cluster de uma região vitivinícola europeia tradicional, caracterizada pelo chamado modelo vitivinícola do terroir. “Legitimidade, governança corporativa e desempenho: análise das empresas da BM&F Bovespa” avalia como a legitimidade, em especial por meio da adesão ao Novo Mercado, condiciona o valor das empresas listadas na Bovespa. “Percepción sobre el desarrollo sostenible de las MYPE en el Perú” apresenta um levantamento da percepção de estudantes de graduação em relação a atividades de responsabilidade social implementadas por micro e pequenas empresas no Peru. “Análisis del credit scoring” aborda a capacidade de previsão de três modelos de credit scoring, sendo dois paramétricos e um não paramétrico.

Completam esta edição a pensata “The five information technology blind spots of economists”, assinada pelo professor da Erasmus University de Rotterdam, Eric van Heck; uma resenha da professora Isleide Fontenelle sobre o livro “Rituais de sofrimento”; e as indicações bibliográficas sobre “Rotinas organizacionais” e “Desastres e logística humanitária”.

 

Tenham uma boa leitura!

 

Eduardo Diniz

Editor chefe

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