RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 53, n. 2, março-abril 2013

Editorial: 

Hoje, somos todos cobrados por nossa capacidade de gerar impacto internacional, seja com pesquisas, seja com periódicos. No entanto, para obtermos sucesso, precisamos – pesquisadores e periódicos – analisar com bastante atenção o ambiente de publicação que serve de veículo para a divulgação de pesquisas científicas. 

Se compararmos o perfil dos periódicos nacionais com o de alguns periódicos estrangeiros relevantes, tomando como base os 116 periódicos brasileiros e 151 estrangeiros da área de Administração constantes do Qualis – excluídos da lista aqueles que são claramente de outras áreas, como Ciência da Informação, Economia, Ciência Política, Psicologia, Ciências Sociais etc. – poderemos fazer algumas constatações interessantes.

A primeira delas é que 86% dos periódicos nacionais são mantidos por alguma instituição de ensino superior (IES), privada ou pública. Os periódicos ligados a sociedades científicas, no Brasil, correspondem a apenas 6% desse universo. Vale observar que dois terços desses periódicos foram criados entre os anos 2000 e 2010, puxados pelo número de cursos de mestrado e doutorado, que aumentou, respectivamente, em 170% e 187%, no mesmo período. Além de haver a necessidade de ampliar o número de veículos para disseminar a crescente produção científica gerada por seus pesquisadores, as IES também aproveitaram a popularização da internet para criar periódicos eletrônicos. Chamam, ainda, a atenção a baixa participação das sociedades científicas na liderança desse processo e a dominância do caráter generalista dessa onda de novos periódicos na área de Administração.

Considerando os periódicos estrangeiros do Qualis, 58% são mantidos por alguma editora comercial, 11% pertencem a alguma associação científica, 9% são ligados a IES. Os restantes são controlados por institutos de pesquisa ou combinações diversas entre esses tipos de instituições. Muito diferente do universo de periódicos nacionais, o de estrangeiros é, em geral, mais focado em subáreas específicas e mantém, na maioria dos casos, conteúdo fechado e disseminado apenas comercialmente.

Como consequência desse cenário, os periódicos estrangeiros tendem a ter uma divisão mais bem definida entre o trabalho de publisher, responsáveis pelas atividades de publicação, e o de editores, com responsabilidades concentradas nas atividades científicas propriamente ditas. Nos periódicos nacionais, normalmente, os editores acumulam também as atividades de publisher, na maioria das vezes ficando em desvantagem na concorrência com a estrutura mais profissionalizada e gerencialmente mais preparada dos periódicos estrangeiros.

Com o aumento crescente do peso da produção intelectual na avaliação dos programas de pós-graduação – era de 30%, em 2004, e passou a 40%, em 2010, se incluída a produção discente – fica claro que o nosso maior desafio não é mais a oferta de periódicos, mas a consolidação de sua qualidade. A tarefa que se nos apresenta hoje, para elevar o nível dos periódicos nacionais e confrontar a concorrência dos estrangeiros, é a construção de uma melhor estrutura de publicação científica. As questões são saber como dar esse passo sem a participação de sociedades científicas fortes e mais focadas e qual será o papel das IES, além de criadoras de periódicos no Brasil.

Nesta edição da RAE, publicamos o resultado da parceria com o Encontro da Divisão de Estudos Organizacionais (ENEO), realizado em 2012 pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Anpad). São três artigos que passaram por todo o processo editorial e contaram com a contribuição de membros do Comitê Científico da Divisão Acadêmica de Estudos Organizacionais (EOR) da Anpad para a sua avaliação e reavaliação. “Política das UPPS e espaços organizacionais precários: uma análise de discurso” identifica como ocorreu o programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), com base na análise crítica do discurso, revelando relações de poder e dominação; “Valoração do conhecimento: significação e identidade na ação organizacional” visa a responder quais processos são adotados pelos indivíduos para a valoração de conhecimento nas organizações; “Micropolíticas das práticas cotidianas: etnografando uma organização circense” analisa como as práticas cotidianas podem ser compreendidas com base na dimensão micropolítica dos processos organizacionais, por meio de um estudo etnográfico.

Contamos com mais três artigos inéditos, “Ambiguidade e consequências futuras dos comportamentos éticos: estudo intercultural” compara a percepção de estudantes portugueses e brasileiros de Administração sobre um conjunto de cenários de ética e aceitabilidade de práticas comerciais. “Ambidestralidade e desempenho socioambiental de empresas do setor eletroeletrônico” analisa 131 empresas da indústria eletroeletrônica, com o objetivo de estudar a relação entre a ambidestralidade e o desempenho socioambiental, e “Hedonismo e moralismo no consumo na base da pirâmide” discute como a literatura sobre o consumo na base da pirâmide apresenta elementos de discursos de incentivo e de crítica.

Completam esta edição a pensata “Logística da distribuição bancária: tendências, oportunidades e fatores para inclusão financeira”, assinada por Marcos Bader e José Roberto Ferreira Savoia; uma resenha sobre o livro dos professores Neil Fligstein e Doug McAdam e as indicações bibliográficas sobre “Execução da estratégia empresarial” e “Conexões em rede e performance da firma”.

 

Tenham uma boa leitura!

 

Eduardo Diniz

Editor chefe

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