RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 5, n. 17, out-dez 1965

Editorial: 

Somos práticos ou teóricos

Segundo ARISTÓTELES, o objeto da c1encia prática é a formulação de regras que orientem a ação para a realização de fins predeterminados. Para ele a sabedoria teórica está contida nas ciências que nos dão verdades universais sobre as relações fixas e inalteráveis das coisas no Universo, ou, em outras palavras, nos ensinam as leis da Natureza; a sabedoria prática é a inteligência aplicada ao controle e à direção da vida humana para a realização da felicidade na comunidade. Em ambas o método é o silogismo, isto é, o raciocínio no sentido de verificar se certos fatos especiais são casos de uma regra, princípio ou verdade geral. O conhecimento dos princípios de qualquer ciência, ainda segundo ARISTÓTELES, pode ser apreendido intuitivamente pela inteligência, ou como resultado de indução a partir da experiência. Sucessivas repetições das mesmas percepções levam a uma experiência única, e é refletindo sobre ela que chegamos aos princípios mais simples e universais. Também para os pragmáticos da administração moderna a experiência é o ponto focal do conhecimento; e a indução - ou, como modernamente é chamada, o bom-senso - a forma de partir da experiência para regras, princípios ou verdades gerais. Quem dera fosse tão fácil refletir sobre a experiência quanto enunciar a regra segundo a qual é ela que leva o ser humano - pela indução ou pelo bom-senso – aos princípios universais. Tão simples em tese, a reflexão sobre a experiência é, na verdade, exercício de raciocínio que deve necessariamente transpor a percepção individual. A percepção meramente individual é sempre limitada, parcial, viciada pela personalidade daquele que percebe. É para formular regras que orientem a ação do administrador para a realização de objetivos predeterminados, transposto o mero limite de percepção individual da experiência, que a REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRÊSAS dirige seu esforço. Nos trabalhos que publica há, quase invariavelmente, o resultado de estudos e observações de experiências e percepções das mais diversas e a preocupação de recomendar que, sob certas condições, sejam desempenhados determinados atos que levem à realização da "felicidade na comunidade" de que falava o filósofo. Não nos intitulamos, portanto, teóricos. Neste número da REVISTA, por exemplo, todos os artigos têm cunho eminentemente prático e recomendam, direta ou indiretamente, ações que, com base nas observações e nos estudos dos autores, melhor levarão as empresas à realização de seus objetivos. Não inteiramente por coincidência, dois dos artigos falam em "prática" no título. Nossa contribuição à ciência prática da Administração - que, como se sabe, é ainda incipiente- é a de dar abrigo e divulgação às reflexões de estudiosos e administradores que, como aqueles que se induzem no presente número, queiram ajudar a construir esse grande edifício científico. Acolhemos com prazer os artigos de "práticos" como nós, que não pretendam explicar o mundo com um ou dois princípios, nem reduzir todo o conhecimento à experiência própria. Ainda que alguns desses trabalhos sejam somente especulativos - "teóricos", no sentido corriqueiro do termo - é suficiente que auxiliem a reflexão sistemática e imparcial e a explicação dos fenômenos sob condições definidas para serem práticos no sentido aristotélico da palavra. E é nesse sentido que importa desenvolver a ciência prática da Administração.

Yolanda F. Balcão

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