RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 47, n. 4, out-dez 2007

Editorial: 

A apresentação desta edição é feita pelo professor Jorge Ferreira da Silva, coordenador da Divisão de Estratégia em Organizações da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Administração (ANPAD). Trata-se de um número temático dedicado à publicação dos artigos selecionados pela referida divisão da ANPAD como os melhores apresentados ao III Encontro de Estudos em Estratégia (III3Es), ocorrido em São Paulo em maio do ano em curso. O material restante publicado também se refere à área de Estratégia.

Com este número também me despeço dos leitores da RAE porque outras atribuições no âmbito da Fundação Getulio Vargas me levam a ter que deixar as tarefas de editor e diretor de nossa revista. Para mim, foi experiência gratificante, embora nunca fácil, editar uma revista científica. O editor de uma revista científica é considerado como tendo, entre outras atribuições, as de um gatekeeper. Para os que apreciam a "ciência normal" e a existência de paradigmas, trata-se de uma nobre ocupação. Preserva-se a pureza do campo, impede-se a entrada de indesejáveis e acredita-se que aquilo que se produz é aprovado e publicado como ciência normal, dentro dos paradigmas respectivos, e estará contribuindo para o desenvolvimento do campo e para a acumulação de conhecimento.

Mas não há unanimidade a respeito da nobreza, importância e mesmo da necessidade de gatekeepers. Há quem veja em gatekeepers uma lamentável figura e, na verdade, empecilhos ao avanço do conhecimento. Isso pode ser colocado talvez de maneira mais pungente com relação aos periódicos considerados de nível internacional A. Para os que buscam e necessitam levar adiante uma carreira, não resta dúvida de que publicar em tais periódicos é uma necessidade, e a aceitação de um artigo passa quase a ser a abertura das portas do paraíso.

Mas, por outro lado, fica sempre a desconfortável questão sobre a possibilidade de se publicar, numa revista com bons e competentes gatekeepers, algo que fuja do mainstream e possa não ser ciência normal. Há quem chegue a afirmar que coisas interessantes não são encontradas em revistas de primeira linha, a não ser excepcionalmente. Se você deseja ler coisas mais provocativas e inovadoras, melhor ler os periódicos que internacionalmente são considerados de nível B.

A RAE, embora seja uma revista de nível Nacional A, segundo o sistema Qualis da Capes, sempre foi capaz de abrigar múltiplas abordagens, teorias e metodologias. Essa linha foi se firmando ao longo de mais de quatro décadas de existência da revista e nunca foi alterada. Procurei manter essa posição, e o sistema de double blind review foi usado para manter qualidade, rigor e relevância, mas nunca para reduzir a diversidade. Dessa forma, o editor da RAE nunca foi um gatekeeper inibidor, repressivo e intolerante. Isso não se refere apenas ao meu termo, mas foi sempre a linha editorial da revista.

Neste momento, a comunidade científica brasileira de administração introduz algumas alterações e sugestões para os periódicos da área. Passa a enfatizar-se mais o impacto da publicação, o acesso, com claras restrições a assinaturas pagas, especialmente quando muito caras, pois podem criar restrições à própria circulação e rápida disponibilização. A tendência é clara para que as revistas sejam colocadas em meios eletrônicos e prontamente disponibilizadas à comunidade, e sem custo. Muitos autores ainda têm grande apego à palavra impressa, e por vezes preferem ter sua produção publicada em meio impresso em vez do meio eletrônico. Mas não há dúvida de que a tendência é pelo declínio do meio impresso nos periódicos científicos. E resta ainda observar que o nível de qualidade dos periódicos especializados em Administração vem ascendendo, segundo avaliações realizadas pela própria comunidade.

Todas essas mudanças e a manutenção de nossa RAE no nível em que se encontra indicam por que as tarefas do editor não são de forma alguma fáceis. Mas daqui por diante todas essas matérias passam a ser atribuição de meu sucessor, o Professor Francisco Aranha, plenamente equipado para cuidar não só das questões editoriais, mas também das administrativas da RAE. A ele auguro os meus melhores votos, e agradeço a toda a equipe da RAE.

Ao sucessor sempre se transmitem problemas não solucionados, dos quais tenho plena consciência. Contudo, no caso da RAE, transmite-se também uma excelente equipe, que, discreta e diligentemente, apóia o trabalho do editor e leva a revista aos nossos leitores. A todos, os meus agradecimentos, e aos leitores, que tiveram a paciência de ler este editorial de despedida, que agora desfrutem dos excelentes artigos sobre estratégia contidos nesta edição.

Carlos Osmar Bertero

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