RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 47, n. 2, abr-jun 2007

Editorial: 

Convidado a proferir a palestra de abertura do Colóquio da EGOS (European Group for Organizational Studies), em Bergen, Noruega, em 2006, James G. March, em pertinente retrospecto histórico, aponta alguns fatos que marcaram o desenrolar dos Estudos Organizacionais (EO) nos último 60 anos: o término da Segunda Guerra Mundial, os protestos dos anos 1960 e 1970, o colapso do Império Soviético e o triunfo dos mercados.

O final dos anos 1980 e o início dos 1990 assistem ao desmoronamento da União Soviética, do comunismo e de toda a cadeia de países que constituíam a esfera de influência soviética. O comunismo terminara, e, com isso, o capitalismo triunfou. Os mercados passam a ser o grande ponto de referência e retomam a posição que lhes havia sido reservada pela economia clássica. A guerra fria acabara, e os Estados Unidos triunfalmente sentiram que a venceram. Os EO têm agora seu interesse voltado para coisas ligadas à estratégia, a fusões e aquisições, empreendedorismo, liderança, alinhamentos entre estrutura, estratégia e processos administrativos, e desempenho organizacional. O entusiasmo por temas "críticos" tende a esmorecer. A influência das ciências sociais como a Sociologia, a Psicologia Social, a Antropologia e a História, e mesmo as humanidades, recua, e a única ponte com o mundo das ciências sociais é a Economia.

EO no Brasil
E quanto ao Brasil, que balanço poderíamos fazer dos EO? No país, os EO surgiram em um contexto de desenvolvimento econômico e de uma visão absolutamente otimista e confiante no futuro do país. Acreditava-se que o Brasil seria uma potência intermediária no início do século XXI, e que os grandes problemas nacionais de enriquecimento e distribuição da riqueza estariam solucionados. O século passado, especialmente a partir de 1930, viu a economia deixar a predominância do setor primário e o avanço da industrialização. Ela acelerou-se após o término da Segunda Guerra Mundial.

Foi nesse contexto que surgiram as escolas de Administração e, nelas, se iniciaram os EO. A abertura de cursos de Administração implicava e direcionava para a profissionalização da Administração e não mais, necessariamente, para empresas dirigidas exclusivamente por seus proprietários. As idéias de burocratização, formalização e racionalização exerceram considerável influência e apontam para uma peculiaridade brasileira: aqui, os EO surgiram em escolas de Administração e a partir de cursos de TGA (Teoria Geral da Administração).

Embora os docentes e pesquisadores das décadas de 1960, 1970 e 1980 tivessem formação em ciências sociais, isso não fez com que os departamentos de ciências sociais se interessassem por EO. As preocupações das ciências sociais entre nós se voltavam para a explicação do subdesenvolvimento brasileiro e das causas de nosso "atraso", de modo que as organizações constituiriam um universo de pouca importância. Após um início "funcionalista" na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, as ciências sociais no Brasil "descobrem" o marxismo, que passa à condição de teoria explicativa hegemônica em nosso meio acadêmico. Dele surge a teoria da dependência, que tanto marcou nosso itinerário intelectual.

Outro evento de importância, e que turvou o otimismo com relação ao futuro do país, foi a ditadura militar que se implanta em 1964 e se estende por mais de 20 anos. O desempenho econômico do período não conseguiu eliminar a decepção pela deterioração das instituições democráticas e representativas, que nos colocava ao lado de países cujo modelo político rejeitávamos. Nesse contexto, freqüentemente se associou a ditadura militar ao apoio dos Estados Unidos e ao clima geral de guerra fria, reforçando a rejeição e o estigma de coisas e teorias identificadas com os Estados Unidos, particularmente o funcionalismo estrutural. Os EO se voltam para a emergente literatura crítica que se expandia na Europa.

Embora não tenhamos augurado triunfalmente o fim do comunismo, também não podemos dizer que tenhamos nos alegrado com o "triunfo" do capitalismo e dos mercados. Mas, paradoxalmente, houve nos meios profissionais de Administração um acolhimento de temas como globalização, livre comércio, abertura da economia e preponderância do mercado, em detrimento do papel econômico do Estado. O reflexo desses acontecimentos sobre os EO também se vem fazendo sentir: estudos sobre liderança, empreendedorismo, desempenho organizacional e APLs (Arranjos Produtivos Locais) ou clusters têm aumentado. A aproximação entre EO e estratégia é bastante significativa.

Sobre o futuro, não se poderá deixar de registrar o fato de que aqui, como no Atlântico Norte, os mais jovens, ou seja, os que ingressaram na universidade a partir da década de 90 do século passado, têm escasso contato e formação em ciências sociais, à exceção da Economia. As demais ciências sociais, aqui, também deixaram de atrair os jovens. As repercussões dessa falta de formação já se fazem sentir, e se expressam na produção científica mais recente.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e editor

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