RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 47, n. 1, jan-mar 2007

Editorial: 

Quando eclodiram escândalos envolvendo a governança corporativa de grandes sociedades anônimas norte-americanas, uma questão imediatamente levantada foi sobre a educação de administradores de negócios naquele país. A razão era simples. No cerne dos problemas de governança não estavam questões técnicas, mas clamorosos deslizes éticos que, pelos valores existentes nas mais diversas culturas do planeta, indicavam que estávamos diante de pessoas desonestas, sem princípios e absolutamente inescrupulosas, que não hesitaram em atirar acionistas, empregados, fornecedores e credores em desgraça a fim de aumentar seus patrimônios. Os exemplos não se limitam, infelizmente, à realidade norte-americana, e podem ser encontrados em empresas ao redor do mundo, inclusive no nosso país.

Um aspecto importante dos escândalos é que parte dos envolvidos, muitos deles levados ao banco dos réus como criminosos, eram portadores de diplomas em Administração das melhores escolas dos Estados Unidos. Estava colocada uma questão decisiva: educar e formar administradores seria apenas transmitir-lhes um conjunto de técnicas e informá-los sobre aspectos considerados essenciais à gestão das empresas? Seria ainda necessário que se formassem administradores éticos? Afinal de contas, em qualquer tipo de organização em que o administrador exerça sua profissão, ela é uma profissão social.

Essa incômoda questão ainda não parece ter sido adequadamente respondida, nem as escolas e educadores parecem ter se detido muito sobre ela. Embora haja cursos de ética de negócios em quase todos os programas que formam profissionais de Administração, não parece que tenham logrado sucesso. O que se esperaria é que fôssemos capazes de ensinar ética como ensinamos marketing, finanças, operações e outras áreas funcionais. O aluno entra sabendo menos ou muito pouco e ao final domina um conjunto de conhecimentos e técnicas que o tornam capaz de atuar como administrador em cada uma delas. No que respeita à ética, o que esperaríamos é que os alunos fossem mais esclarecidos sobre o que seja ética de negócios e também fossem capazes de lidar com dilemas éticos mantendo valores éticos, e tornado as empresas que dirigem igualmente éticas. A corrupção que hoje existe no mundo não é explicável sem um envolvimento do mundo empresarial, seja de maneira ativa ou passiva. Não há corruptos sem corruptores e vice-versa.

Nesse cenário, é particularmente elucidativo e preocupante o artigo publicado no número 3 do volume 5 da revista Academy of Management Learning and Education sobre "colas e fraudes" entre estudantes pós-graduados em Administração nos Estados Unidos. A hipótese levantada pelos autores do artigo é que os estudantes de Administração colam e fraudam mais provas e trabalhos escolares do que os estudantes pós-graduados noutras áreas de conhecimento. A hipótese foi confirmada num estudo empírico envolvendo alunos de duas centenas de programas de formação naquele país. O trabalho restringiu-se a MBAs, que é o principal curso de formação profissional naquele país. No mesmo artigo, os autores, ao comentarem e discutirem os resultados, levantam algumas razões para a menor estatura ética de estudantes de Administração. Uma delas é a maior ambição. Os que buscam carreiras de administradores são pessoas mais ambiciosas por renda, patrimônio, poder e prestígio. Em qualquer sociedade essas coisas são sempre relativamente escassas, e isso desencadeia um processo competitivo que leva a um acirramento de disputas. Outra explicação é que o mercado de trabalho para administradores é muito competitivo e com um traço muito peculiar: as notas são consideradas muito importantes. Muitas empresas pedem os históricos escolares dos candidatos, e inúmeras vezes decidem usando, como um dos critérios, as notas obtidas durante o curso.

Embora não seja parte dos comentários dos autores, acrescentaríamos que o mundo da prática administrativa não vê como problemática a apropriação de coisas dos concorrentes. Pelo contrário, chega a ser estimulada. O popular conceito de benchmark não é mais do que aconselhar que se copiem os procedimentos, produtos, estruturas e processos dos competidores mais bem-sucedidos e se apliquem na empresa que se dirige. Não há nenhuma punição para isso. O bom imitador, ao apropriar-se e reproduzir o que levou seus concorrentes ao sucesso, acaba colhendo elogios e recompensas dos mais diversos tipos.

Talvez seja difícil concluirmos este editorial sem resvalarmos num tom sombrio. Será que a prática da Administração em nossa sociedade contribui para a "corrosão do caráter" como argumentou em conhecido ensaio o sociólogo norte-americano Richard Sennett? A resposta fica para a reflexão de nossos leitores, a quem desejamos uma profícua leitura do que publicamos neste número. Desejamos também a todos um fantástico 2007 na vida pessoal e nas atividades profissionais, naturalmente sempre mantendo elevados padrões éticos.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e Editor

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