RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 45, n. 3, jul-set 2005

Editorial: 

Nem sempre o editor consegue controlar a pauta numa revista científica. Isso porque o material que finalmente se torna disponível para ser publicado passa por todo um processo de avaliação, revisão e editoração, que escapa ao seu controle. Isso faz com que possa haver um desequilíbrio de conteúdo, privilegiando certas áreas e omitindo outras. Acredito que o desejável é ter sempre artigos que cubram várias áreas.

Mas isso não acontece neste número. Por coincidência, ele acaba mais inclinando para a estratégia e, no interior da estratégia, acaba se voltando para metáforas ou referenciais provenientes da biologia evolutiva. Isso porque o artigo de Kimura, Giro Moori e Asakura embarca numa exploração de usar algoritmos genéticos para nos falar de difusão e uso de tecnologias como formas de levar adiante estratégias competitivas. E na seção "RAE-clássicos" publicamos a tradução do artigo de Michael Hannan e John Freeman sobre ecologia populacional de organizações. Embora oriundos de caminhos científicos diversos - os brasileiros, sólidos engenheiros, com formação quantitativa, e os dois americanos, bons sociólogos, com base biológica e conhecimento matemático não desprezível -, acabam explorando o universo da biologia evolutiva como forma de explicar ações organizacionais. O artigo clássico de Hannan e Freeman é um exemplo de como conceitos desenvolvidos há quase dois séculos por Charles Darwin podem auxiliar na teorização e na explicação de ciclos de vida das organizações. Ora, a estratégia só conhece o sucesso. O que não for bem-sucedido não merece registro no mundo dos estrategistas. Exatamente como as espécies extintas perdem a relevância para explicar o que acontece no ambiente biológico.

Temos a Pensata de Armando de Melo Lisboa, em que lida com a questão da autogestão na economia solidária. Propostas de um sistema econômico alternativo surgiram desde a Primeira Revolução Industrial. Basta lembrar o aparecimento dos socialistas utópicos. As raízes da economia solidária são múltiplas, mas uma delas é certamente o socialismo utópico e uma maneira de ler e entender os valores do cristianismo. Digo uma maneira porque é difícil saber exatamente o que são valores cristãos. Weber classicamente lembrou que o capitalismo foi gerado por valores cristãos no seu famoso ensaio em que relaciona a ética protestante e o espírito do capitalismo. Nessa linha de pensamento, individualismo, sistemas de mérito e competitividade seriam práticas profundamente influenciadas por valores cristãos. Não é o que nos apresenta Lisboa como traços da economia solidária que recusa o individualismo, a competitividade e a busca da acumulação em nome de valores também cristãos. Afinal, o entendimento do que sejam valores cristãos pode originar posições até mesmo antagônicas ao se tratar de sistemas econômicos e sociais. Acreditamos que a Pensata sirva como alimento para a reflexão sobre essas ambivalências.

Ainda na linha de um número que acabou sendo mais denso em estratégia, chamo a atenção para a resenha de Fábio Mariotto sobre Francesco Matarazzo. A autoria do livro é de Ronaldo Costa Couto. A história empresarial tem pouca tradição entre nós. Textos sobre empresas e empresários raramente têm a objetividade que se espera na historiografia. O livro resenhado escapa da tentação puramente laudatória e nos permite ver, em diversos aspectos pela primeira vez, aquele imigrante italiano que até hoje permanece solitário como o maior empresário que já tivemos.

Entendendo que uma parte de nossos leitores são professores ou pessoas interessadas na formação de administradores, fomos levados a publicar o texto de Maria Éster de Freitas no novo formato da seção "RAE-documento". Se ensinar nunca foi fácil, nos dias que correm parece ter se tornado mais difícil. Já se disse que uma sala de aula onde um professor fala e algumas dezenas de pessoas ouvem é um modelo que vem dos tempos do Antigo Império Egípcio, há cerca de 4.000 anos. Atualmente tendemos a romper com essa secular tradição, e vários experimentos são realizados em salas de aula para focar a atenção e os esforços dos alunos, tornando o aprendizado mais dinâmico e relevante. O documento narra uma experiência desse tipo realizada pela autora na FGV-EAESP.

Temos ainda os artigos "Ambiente, estratégia e performance organizacional no setor industrial e de serviços", de Janete Lara de Oliveira Bertucci; "Organizações, confiabilidade e tecnologia", de Ana Carolina S. Queiroz e Flávio Carvalho de Vasconcelos; "Criação de conhecimento nas redes de cooperação interorganizacional", dos pesquisadores Alsones Balestrin, Lilia Maria Vargas e Pierre Fayard.

O fato de me deter sobre alguns dos artigos não significa certamente prejulgamento ou qualquer avaliação do conteúdo da revista. O leitor se beneficiará com a leitura de tudo o que está sendo apresentado.

Entrego aos nossos leitores mais um número da RAE com votos de uma proveitosa leitura.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e editor

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