RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 45, n. 1, jan-mar 2005

Editorial: 

Este espaço foi com freqüência reservado a apreciações críticas sobre a pesquisa em Administração no Brasil. Este editorial não será exceção: continuamos crendo que a perspectiva crítica é salutar e traz contribuições importantes.
O momento é marcado por um certo frenesi: a pressão por publicações cresce, o número de submissões de artigos a eventos e revistas aumenta, assim como o próprio número de eventos e revistas. Entretanto, cabe perguntar: terá a produção local evoluído em termos qualitativos nos últimos anos? Ao menos aos olhos deste editor, observador privilegiado da comunidade local, a resposta é não. Em sua "porta de entrada", a RAE continua recebendo artigos frágeis, com base teórico-conceitual esquálida, de autores que não leram a linha editorial e parecem desconhecer o sentido de um artigo científico. No extremo oposto do processo, permanece a dificuldade em preencher uma pauta. A cada nova edição, repete-se a constrangedora situação de não haver número suficiente de artigos para compor a revista. O processo de double blind review, mesmo incentivado, monitorado e controlado, ainda produz inúmeras avaliações "telegráficas", com contribuição mínima. Mesmo a recente introdução do aconselhamento editorial parece ser insuficiente para salvar os artigos. O problema, como se sabe, não é exclusivo da RAE.
As constatações sobre a limitada contribuição científica dos trabalhos locais vêm de longa data. A série RAE-documento, focada no desenvolvimento das várias áreas dentro da Administração, confirmou e consolidou essa visão pessimista. O pesquisador local é paroquial, tem formação metodológica insuficiente, é mal informado sobre seu campo, produz com ambições limitadas, contenta-se com apresentações em eventos e, quando se aproxima da prática, o faz sem distanciamento e sem olhar crítico.
Tais constatações, partilhadas por muitos colegas, podem chocar os mais sensíveis. No entanto, cabe argüir: não é o caso de aceitarmos a dura realidade e empreendermos um plano radical de recuperação? Se concordarmos com tal linha de conduta, então a questão seguinte será: o que fazer? Primeiro, deveríamos decretar uma moratória de dois ou três anos.
Nesse período, nenhum artigo deveria ser escrito ou publicado, e ocuparíamos nosso tempo nos atualizando em metodologias e conteúdos. Segundo, deveríamos definir uma agenda local, capaz de prover identidade e gerar impacto sobre a prática gerencial brasileira. Terceiro, deveríamos buscar reduzir o fosso que nos separa da comunidade internacional. Há, de certo, boa dose de utopia nessas propostas. Desejamos, no entanto, que a provocação leve à reflexão, e esta a saídas factíveis.

Alimento para a mente e a alma

Nesta edição, a RAE traz diversas inovações: primeiro, as seções deixam de ser classificadas por áreas de conhecimento, acompanhando tendência existente entre as publicações do campo; segundo, é introduzida a seção RAE-debate, já presente na RAE-eletrônica, que tem o objetivo de contribuir para a discussão de idéias e o avanço do conhecimento; e terceiro, é inaugurada uma série com artigos essenciais comentados, denominada RAE-clássicos.
A seção de artigos traz um trabalho da área de Organizações: Eduardo Davel e Sylvia Constant Vergara apresentam um ensaio inédito de Tony J. Watson no qual o autor propõe que as organizações sejam vistas como arenas ou texturas em constante processo de criação de padrões de relacionamento.
RAE-documento traz mais um artigo que avalia a produção brasileira, dessa vez com foco na área de Sistemas de Informação: Norberto Hoppen e Fernando de Souza Meirelles apresentam uma avaliação crítica da pesquisa científica brasileira nesse campo entre 1990 e 2003.
Em RAE-debate, Ana Paula Paes de Paula apresenta uma avaliação comparativa entre dois modelos de administração para o setor público: o modelo gerencial e o modelo de gestão social. Em seguida, especialistas debatem o artigo e os modelos tratados.
A seção RAE-clássicos é inaugurada com uma introdução de Miguel P. Caldas, que mostra a importância da leitura de trabalhos seminais para o desenvolvimento do campo de estudos organizacionais no Brasil. Dois artigos compõem o número inicial: no primeiro artigo, Gareth Morgan apresenta seu modelo clássico para a classificação dos paradigmas de pesquisa. Avançando a mesma discussão em um artigo mais recente, Marianne W. Lewis e Andrew J. Grimes tratam da construção de teorias a partir de múltiplos paradigmas.
Completam esta edição duas resenhas e duas indicações bibliográficas.

Convite

Este número marca o final do mandato deste editor. Ao meu sucessor, professor Carlos Osmar Bertero, dou as boas-vindas à comunidade RAE e desejo sucesso em sua missão. Reforçamos aqui o convite para que todos enviem seus trabalhos para nossa revista.

Boa leitura!

Thomaz Wood Jr.
Diretor e Editor

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