RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 44, n. 2, abr-jun 2004

Editorial: 

Editores de revistas científicas têm uma perspectiva privilegiada sobre o processo de produção científica. Um dos elementos-chave desse processo é a revisão por pares, a que todo artigo é submetido depois de passar pelo crivo inicial do próprio editor ou dos editores associados.
Em um mundo ideal, editores receberiam trabalhos de excelente qualidade, os aceitariam para seguir a blind review e os enviariam para avaliadores selecionados em um amplo banco de dados. Esses avaliadores, por sua vez, teriam afinidade com o tema, interesse em fazer o trabalho e disporiam de tempo para realizá-lo. Autores, avaliadores e editores seriam todos indivíduos razoáveis e abertos a críticas. Assim, se estabeleceria um diálogo entre pares, o que contribuiria decisivamente para o desenvolvimento dos artigos.
A prática, porém, revela-se um pouco diferente: avaliadores comumente chegam a pareceres contraditórios; muitos autores crêem que seus trabalhos foram mal interpretados e reagem com irritação. Editores, por sua vez, não estão livres de vieses. Além disso, vêem-se freqüentemente frente a avaliações "telegráficas" que rejeitam artigos promissores ou aceitam artigos ainda com grandes lacunas conceituais ou metodológicas.
Entretanto, com todos seus defeitos e ambigüidades, esse processo continua sendo uma das principais práticas a contribuir para a qualidade das publicações. Em recente artigo veiculado no Journal of Management Inquiry, Bill Starbuck, ex-editor da Administrative Science Quarterly, comenta que, como autor, desde cedo adotou uma regra de ouro: "o avaliador está sempre certo". Conforme explica, isso não significa que o avaliador seja infalível. Porém, ele representa a população de leitores e, em tal condição, é capaz de antecipar os aspectos nos quais o artigo pode ser mal entendido. Embora muitos avaliadores pareçam aos autores arrogantes ou sádicos, seu trabalho sempre ajuda a aperfeiçoar o artigo. Não se deve esperar que o autor aceite todas as recomendações dos avaliadores. Afinal, como lembra Starbuck, a decisão final sobre alterar o trabalho deve vir de dentro de cada autor, a partir de sua experiência, de sua forma de pensar e de sua ética.
Que lições podemos tirar dessas observações? Primeiro, que autores e avaliadores devem ser incentivados a se verem como pares, verdadeiros parceiros no desenvolvimento do trabalho; segundo, que o editor deve estimular autores e avaliadores a expressarem de forma aberta e transparente suas posições; terceiro, que os autores não devem se inibir ou se irritar diante de críticas, mesmo as mais agressivas, mas ver nelas oportunidades para melhorar seu texto ou comunicar de forma mais efetiva suas idéias; quarto, que o editor deve se esforçar para prover equilíbrio ao diálogo e, sempre que a dúvida e o silêncio se estabelecerem, acionar outras vozes.

ALIMENTO PARA A MENTE E PARA A ALMA

Nesta edição, a RAE traz um fórum, quatro artigos e duas pensatas.
O Fórum IAM-2003, com apresentação de Luis Gomez-Mejia, traz três artigos premiados na Terceira Conferência Internacional da Iberoamerican Academy of Management. Os autores - Sergio G. Lazzarini, Thiago A. Z. Joaquim, Maria Carmen García Olaverri, Martin Larraza Kintana, Ainhoa Urtasun Alonso, Natalia Weisz e Roberto S. Vassolo - representam cinco instituições de três países, retratando a diversidade que caracterizou o evento.
No campo da estratégia, Flavio Carvalho Vasconcelos e Luiz Artur Ledur Brito discutem o construto "vantagem competitiva", trazendo como contribuição uma proposta para operacionalizar sua medição.
No campo de Organizações, Emma Bell e Scott Taylor investigam criticamente o fenômeno da espiritualidade no ambiente de trabalho. Para os autores, a ascensão dessa ética do trabalho representa uma renovação da ética protestante no trabalho.
No campo de Finanças, Hudson Fernandes Amaral, Caroline Sales Issa Vilaça, Camila Figueiredo Marques Barbosa e Valéria Gama Fully Bressan discutem o papel dos fundos de pensão como financiadores da atividade econômica. No mesmo campo, Antonio Marcos Duarte Júnior e Rogério José Furigo Lélis tratam da alocação de capital em bancos e seguradoras no Brasil.
Duas pensatas compõem esta edição: Adolfo Calderón fala da emergência das universidades mercantis e seus impactos sobre a educação no Brasil; e Gustavo Luiz Gutierrez, Maria Estér de Freitas e Afrânio Mendes Catani relembrar a tragetória de Ramon Moreira Garcia.
Completam esta edição duas resenhas e duas indicações bibliográficas.

MELHOR ARTIGO DE 2003

Com satisfação, comunicamos que "Sentimentos, subjetividade e supostas resistências à mudança organizacional", de autoria de Sylvia Constant Vergara e José Roberto Gomes da Silva, foi escolhido o melhor artigo de 2003. O processo de seleção considerou o número de acessos em nosso site e a opinião de nosso corpo de editores associados.

CONVITE

Mais uma vez, renovamos o convite para que todos enviem seus artigos para a RAE. Tal convite inclui também nossos fóruns temáticos, as pensatas e resenhas.

Boa leitura!

Thomaz Wood Jr.
Diretor e editor

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