RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 44, n. 1, jan-mar 2004

Editorial: 

A chamada de trabalhos para o encontro anual da Academy of Management de 2004, assinada por Thomas G. Cummings e Yolanda Jones, fez eco às preocupações da maior comunidade de pesquisadores de gestão do mundo, já expresso por vários de seus presidentes em ocasiões anteriores. Segundo Cummings e Jones: "Os membros da Academy têm feito um trabalho convincente em termos de criação de conhecimento cientificamente robusto e rigoroso. De fato, temos gerado um corpo impressionante de teoria e resultados sobre organizações e sobre gestão; porém, temos sido muito menos bem-sucedidos em assegurar que nosso conhecimento seja aplicado. Muito de nosso conhecimento não consegue fazer frente à lacuna entre teoria e prática; ele mantém-se isolado do lado acadêmico, freqüentemente expresso em linguagem esotérica. Conseqüentemente, poucos executivos lêem nossa pesquisa ou apreciam seu valor prático; eles focam atenção em material publicado em formatos mais amigáveis e em sua própria experiência para guiar suas ações."
Na mesma linha crítica, em um recente evento acadêmico internacional, um dos convidados especiais declarou à numerosa platéia que considerava que as publicações acadêmicas deveriam ser incorporadas ao departamento de pessoal das escolas. Explicação: a principal razão de ser das publicações é complementar a avaliação de desempenho que possibilita aos pesquisadores atingir a cobiçada tenure. A irônica observação poderia ser facilmente complementada com a máxima popular que diz que revistas acadêmicas existem para serem publicadas, não para serem lidas.
Premidos a elevar sua produção científica para prover prestígio e lustro a suas instituições, pesquisadores estão fazendo exatamente o que é pedido: elevando os indicadores de produção acadêmica. No Brasil, muitas escolas de Administração vêm criando "fábricas de artigos", linhas de montagem mais focadas em indicadores do que em rigor e relevância. Em muitos outros países ocorre fenômeno similar. Significativamente, em eventos científicos, a discussão de idéias cede lugar a conversas sobre "como publicar". Aonde nos levará esse caminho? Provavelmente à criação de uma elite burocrática, cada vez mais apta a publicar, porém distante de qualquer preocupação com a aplicação do conhecimento gerado.
Cabe então perguntar como uma revista como a RAE poderia fazer frente a essa situação. Acreditamos que a resposta compreende três linhas de conduta: primeiro, devemos expressar claramente uma posição de defesa do rigor, da legibilidade, da aplicabilidade e da adequação ao contexto local; segundo, devemos exercer sem constrangimento nosso papel de gate-keeper, garantindo que os trabalhos publicados tragam de fato contribuição científica; terceiro, devemos monitorar o impacto dos artigos publicados.

Alimento para a mente e para a alma

Esta edição da RAE traz entre seus artigos dois temas emergentes: aprendizagem e competências e gestão de projetos.
No campo de Organizações, Christopher Grey investiga criticamente um clichê presente em muitos livros e artigos de gestão: a idéia de que vivemos um momento singular de grandes mudanças.
Em seguida, o Fórum de Aprendizagem Organizacional e Competências traz quatro artigos. No primeiro trabalho, Suzana B. Rodrigues, John Child e Talita R. Luz unem o tema da aprendizagem ao da transformação empresarial, usando como base um caso real em uma grande empresa brasileira. No segundo trabalho, Maria Tereza Leme Fleury e Afonso Carlos Correa Fleury apresentam um bem articulado desenvolvimento teórico sobre o tema das competências, ilustrado por um caso prático. No terceiro trabalho, Claudia Cristina Bitencourt trata de competências gerenciais e aprendizagem organizacional. Fechando o fórum, Paulo Prochno traz uma contribuição para a compreensão da construção do conhecimento arquitetural.
No campo de Gestão de Operações e Logística, Boris Asrilhant, Robert G. Dyson e Maureen Meadows abordam o tema emergente da gestão de projetos, tendo como base uma ampla pesquisa de campo.
No campo de Ensino e Pesquisa em Administração, Paul N. Friga, Richard A. Bettis e Robert S. Sullivan discutem perspectivas e desafios para as escolas de negócios. No mesmo campo, este editorialista e Ana Paula Paes de Paula apresentam e discutem o fenômeno dos MPAs brasileiros.
Completam esta edição duas resenhas e duas indicações bibliográficas.

CONVITE

Reforçamos aqui, mais uma vez, o convite para que todos enviem seus trabalhos para a RAE.

Boa leitura!

Thomaz Wood Jr.
Diretor e editor

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