RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 43, n. 4, out-dez 2003

Editorial: 

Nesta edição veiculamos o segundo RAE-documento: Pesquisa em Administração. Essa iniciativa tem como objetivo registrar o "estado-das-coisas" da produção acadêmica brasileira e fomentar o debate sobre perspectivas e caminhos para nosso campo.
Um rápido exame dos textos publicados nas duas últimas edições induz-nos a conclusões inequívocas. Primeiro, produção há! Ao longo da década de 1990, período coberto pela maioria dos trabalhos, a produção local cresceu vigorosamente. Foi também razoavelmente bem-sucedida no delineamento de suas próprias fronteiras e subdivisões internas. Segundo, os problemas já apontados em avaliações anteriores persistem: nossa produção acadêmica permanece nos subterrâneos da produção mundial e sofre de problemas crônicos de qualidade. Como assinalou um agudo avaliador da própria RAE, ao se deparar com mais um trabalho sobre cultura organizacional, "é como se nos dedicássemos permanentemente a 'reinventar a roda', trazendo para os trópicos teorias gastas, que utilizamos, freqüentemente sem entender, para explicar fenômenos semi-reais, que projetamos na realidade para viabilizar nosso exercício investigativo".
Em suma: evolução há, porém continuamos a uma boa distância de gerar conhecimento relevante, seja para o desenvolvimento teórico, seja para a prática administrativa. Convém observar que essa relativa "inutilidade" não é privilégio nosso: nos Estados Unidos, berço da disciplina, a comunidade acadêmica também enfrenta crise similar, lá marcada pela fragmentação e pela incapacidade de gerar impacto sobre o "mundo real".
Se o diagnóstico é transparente e persistente, o que nos impede de nos movermos para outra direção? Será o estado atual das coisas de interesse de nossos pesquisadores? Serão as viagens turísticas a congressos, o desenvolvimento autocentrado, o prazer autotélico e o permanente culto ao ego suficientes para sustentar o status quo? Ou será que faltam caminhos e diretrizes, além da burocracia apaixonada por avaliações e índices de produtividade?
O observador mais sensível talvez perceba no ar o desejo de um "Projeto Genoma", um grande empreendimento coletivo, com um objetivo claro, um tema bem delineado, um ciclo definido, pesquisadores capacitados, recursos adequados e, principalmente, um produto de valor a ser entregue. Levado adiante pela comunidade, tal projeto talvez representasse o mesmo divisor de águas que significou para os pesquisadores da Biologia, em especial a demonstração de que a comunidade acadêmica é capaz de se mobilizar como um corpo único e gerar conhecimento útil e de impacto.
Naturalmente, não são pequenos os desafios: a escolha do tema, o desenvolvimento dos recursos, o monitoramento da evolução, entre muitos outros. Tampouco serão pequenas as dificuldades para acomodar visões e interesses. A chance de realizar uma utopia viria sempre acompanhada do risco de gerar uma distopia.

ALIMENTO PARA A MENTE E PARA A ALMA

Nesta edição, a RAE traz mais uma vez um "cardápio" variado de conteúdos e provocações.
No efervescente campo da Estratégia, Denise L. Fleck retoma a literatura clássica deste domínio e discute o "motor do crescimento contínuo da empresa" e o "motor de co-evolução de empresas e indústrias".
No campo das Organizações, Arménio Rego busca desenvolver uma contribuição original para a questão do comprometimento organizacional, tido como fator-chave para o desempenho organizacional e para a competitividade.
No campo da Mercadologia, Filipe Campelo Xavier da Costa e Juliano A. Larán propõem um modelo de antecedentes e conseqüências da compra por impulso no comércio eletrônico. O objetivo dos autores é contribuir para uma melhor compreensão do comportamento do consumidor.
RAE-documento traz quatro artigos com reflexões sobre a evolução de nosso campo. No primeiro, Carlos Osmar Bertero, Flávio Carvalho de Vasconcelos e Marcelo Pereira Binder mostram a evolução da produção brasileira no campo da Estratégia entre 1991 e 2002. No segundo artigo, Regina Silva Pacheco mostra um retrato crítico da pesquisa recente em Administração Pública no Brasil. No terceiro, dois jovens pesquisadores, Eduardo Davel e Rafael Alcadipani, fazem um balanço de uma abordagem também jovem: os Estudos Críticos das Organizações. Fechando o grupo, há um artigo estrangeiro, aqui incluído para fazer contraponto aos demais: Eric W. Ford e colaboradores apresentam uma reflexão sobre a questão da utilidade e do impacto da pesquisa em gestão.
Em Pensata, Paula Chies Schommer apresenta um interessante registro de inovações na gestão pública brasileira, um trabalho de pesquisa baseado no exemplar Programa Gestão Pública e Cidadania.
Completam esta edição duas resenhas e duas indicações bibliográficas.

CONVITE

Desejamos que esta edição parcialmente dedicada a reflexões sobre o desenvolvimento do campo da Administração no Brasil alimente polêmicas e motive pesquisadores a enviarem suas colaborações.

Boa leitura!

Thomaz Wood Jr.
Diretor e Editor

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