RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 41, n. 2, abr-jun 2001

Editorial: 

Este número inaugura uma nova gestão na RAE. De fato, é um prazer e uma honra assumir essa missão e espero dar continuidade e fazer avançar as iniciativas da gestão anterior, conduzida pelo Professor Roberto Venosa.

Desafios
Entretanto não são poucos os desafios. A Administração de Empresas mudou, e muito, nos últimos anos: criou novos domínios e novas especializações. Hoje, é um campo desenvolvido e institucionalizado, alimentado por três potentes motores: o primeiro é constituído pelas escolas de administração, que se multiplicam pelo país; o segundo é composto pelas empresas de consultoria, que têm crescido a taxas impressionantes; o terceiro é a industria editorial, que gera de forma incessante livros e revistas.
O vigor do campo é invejável. Por outro lado, qualidade e consistência nem sempre acompanham seu crescimento. Especificamente no mercado editorial, multiplicam-se as publicações de conteúdo duvidoso e obsessivo apelo comercial. São veículos para gurus e modas gerenciais, que seguem o ritmo das estações e pouco valor agregam a executivos e empresas.
Mas o distanciamento da realidade não é "privilégio" da literatura de pop-management. Também a academia comete seus pecados. Apegados ao rigor e armados com retórica sofisticada, muitas vezes nos isolamos do mundo real. Conseqüência: a temerosa produção de irrelevâncias disfarçadas de peças científicas.
Por isso, paradoxalmente, continua havendo carência de conteúdo sério e crítico, de abordagens coerentes que ajudem a entender o mundo empresarial e a torná-lo minimamente tratável. Assim, vejo a RAE como fonte de leitura crítica e reflexiva, um antídoto contra a superficialidade e a fragmentação hoje dominantes.

Momento singular
A presente mudança de gestão ocorre em momento singular. A RAE percorre seu quadragésimo ano de vida com uma expressiva tiragem de 17.000 exemplares, um número impressionante, qualquer que seja o critério de análise e qualquer que seja o parâmetro de comparação, local ou internacional.
Ao mesmo tempo, tal grau de disseminação constitui enorme desafio, pois coloca a RAE diante da questão crucial da definição de sua própria identidade. Hoje, entre seu público, encontram-se estudantes, executivos, professores e pesquisadores, e cada um desses segmentos tem necessidades diferentes, às quais devemos responder.
Será possível atender, com um só veículo, a tamanha diversidade? Apostamos que sim. Nosso objetivo é fazer uma revista generalista, que atenda a um espectro amplo de domínios de conhecimento, perspectivas e questões. Para isso, devemos somar profundidade e legibilidade, rigor e pertinência.
Ressalto aqui que a legibilidade deve ser uma prioridade. Não acredito que consistência e profundidade sejam companheiras do hermetismo e da leitura pesada e sonolenta. Por esse motivo, devemos investir em clareza e objetividade.
Pretendo também publicar artigos que desafiem o conhecimento e as práticas estabelecidas com perspectivas provocativas e inovadoras. Para isso, espero contar com os colaboradores atuais e com novos autores.

Renovação
A RAE avança sobre sua quarta década mudando: conteúdo e forma deverão ser renovados. Algumas alterações já poderão ser verificadas a partir desta edição.
Publicamos neste número nossa "linha editorial". Não se trata de uma "versão beta", porém tampouco de versão final, irretocável. De fato, espero que a interação com a comunidade de leitores e colaboradores ajude a aperfeiçoá-la.
Renovamos também nosso Conselho Editorial. Aos que deixam o posto, registro aqui nosso agradecimento. Aos membros do novo Conselho caberá apoiar o Diretor na definição de macrodiretrizes para a RAE.
Criamos a função de Editor Associado, que será preenchida por especialistas nos diversos campos de conhecimento que compõem a Administração de Empresas. A eles caberá apoiar o Diretor na captação e na avaliação de artigos. Seu mandato será de um ano, podendo ser renovado.
Nesta edição, implementamos ainda uma nova divisão de seções, cujas denominações foram adaptadas a partir das divisões do Enanpad. Assim, alinhamo-nos com o principal fórum acadêmico brasileiro em nosso campo.
Começamos também a implementar algumas alterações no projeto editorial. A partir deste número, modificações na capa e na diagramação começam a ser implantadas, com o objetivo de proporcionar uma visualização mais "limpa" e homogênea e facilitar a leitura.

Alimento para a mente e para a alma
Expresso aqui o desejo de toda a equipe que produz a RAE de que a presente edição traga aos prezados leitores alimento para a mente e para a alma. Não faltam estímulos e provocações, como se pode ver a seguir.
Maria Ester de Freitas exercita uma vez mais sua lucidez crítica, colaborando com um provocativo trabalho sobre a delicada questão do assédio moral nas organizações.
Sylvia Constant Vergara e Paulo Durval Branco revêem um tema fundamental: a humanização da vida organizacional. Seu artigo deve servir de inspiração para um número crescente de profissionais, que estão preocupados com questões densas e urgentes como responsabilidade social, ética e ecologia.
José Mauro C. Hernandez e Miguel P. Caldas abordam a questão da resistência à mudança. O tema é central nos processos de transformação organizacional e, embora muito tratado, ainda é pouco compreendido.
Nos domínios da mercadologia, Juracy Gomes Parente e Heitor Takashi Kato apresentam um interessante estudo de campo sobre áreas de influência no varejo de supermercados. Seu trabalho representa contribuição notável para a compreensão de um segmento bastante dinâmico.
Luiz Antonio Joia revela um modelo para medir o capital intelectual das empresas. Na sociedade do conhecimento e da informação, seu artigo chega em oportuníssimo momento.
Mauro Halfeld Ferrari Alves e Fábio de Freitas Leitão Torres discutem outro tema do momento: finanças comportamentais. Os autores seguem uma corrente ascendente no campo, incorporando as evidências sobre a irracionalidade do investidor à compreensão dos fenômenos econômico-financeiros.
Ainda no domínio de finanças, Paulo Sérgio Ceretta e Newton C. A. da Costa Jr. lançam luzes sobre o mercado financeiro latino-americano, discutindo relacionamento risco-retorno, volatilidade condicionada e sazonalidade diária.
Na RAE-Light, temos dois artigos. Na seção Tecnologias de Gestão, Luiz Carlos de Oliveira Cecilio discute a questão do planejamento na universidade. Num momento de aumento da demanda e orçamentos apertados, o tema ganha óbvia relevância.
Num ensaio de inspiração humanista, Maria José Tonelli fala da vida executiva. A autora segue trajetória firme e crítica contra os apóstolos da globalização e deslumbrados diversos.
Finalmente, cabe, neste editorial, observar que a RAE é uma revista editada pela FGV-EAESP, mas não se restringe à comunidade que gravita em torno dessa instituição. Como a própria FGV-EAESP, que vive intenso processo de internacionalização, trabalharemos para que a RAE seja aberta para toda a comunidade científica e empresarial brasileira e internacional. Esperamos que essa orientação atraia novos leitores e novos articulistas.

Boa leitura!
Thomaz Wood Jr.
Editor e Diretor

 

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