RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 4, n. 13, out-dez 1964

Editorial: 

O exemplo de um pioneiro
 

"José Longo era um mestre de oficina numa pequena indústria metalúrgica. Homem competente e dedicado, José se orgulhava de três coisas na sua vida : sua filha única, uma criação de perus e o espírito de cooperação que reinava entre os seus subordinados. Certo dia a direção da empresa resolveu introduzir algumas modificações no processo de fabricação, que obrigava o velho mestre a separar-se de sua equipe de trabalho. José Longo, porém, não se conformava com a decisão. Era esse, em resumo, o "caso" de relações humanas com que se deparava um grupo de alunos ao qual cabia analisar o problema e discuti-lo "à vontade". O professor não interferia; até aparentava certa indiferença durante os debates, muito embora êstes se tornassem cada vez mais calorosos e agitados . Ao terminar a reunião, muitos deixaram a sala de aula profundamente decepcionados. Indagavam: "Afinal, qual a solução do caso? Que teria acontecido a José Longo?" Aparentemente, o professor ou não tinha respostas a essas perguntas, ou escondia a solução. E muitos chegaram a concluir: - "Esse professor não vale nada!" Foi esse o frustrante resultado da primeira aula na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas! Estávamos em 1954. Local: Rua Martins Fontes. Nome do professor: Dr. KARL A. BOEDECKER, convidado a criar, como primeiro chefe da Missão Universitária Norte-Americana, uma escola-piloto para administradores do Brasil. Hoje, dez anos mais tarde, desejamos, ao relembrar esse incidente, prestar homenagem ao insigne educador. Não, não é paradoxal. É que naquela ocasião tivemos dificuldade para compreender a mensagem do Prof. BOEDECKER. Sua atitude, contudo, fora propositada. Desejava provocar nossa revolta a fim de preparar-nos para uma inesquecível lição, a de que Administração de Empresas não se ensina ex-cathedra, como o Evangelho ou a Física Nuclear. Para formar administradores é preciso submetê-los a testes que desenvolvam sua capacidade de julgamento, análise e decisão. Por conseguinte, para a compreensão de um problema o diagnóstico é mais significativo do que o enunciado de sua solução. Esta deve resultar do estudo ponderado das alternativas de ação, e não de uma tomada de posição, frequentemente preconcebida . Finalmente, o conhecimento de princípios e técnicas facilita o julgamento, mas não deve ser aplicado sem que antes seja adaptado às condições particulares do momento, que nunca se repetem com a mesma conjuntura . Partindo dessas premissas, BOEDECKER nos demonstrou como os métodos de debate e participação se adaptam ao ensino da Administração, cuja finalidade não consiste em formar especialistas padronizados, mas generalistas informados. Achava ele que dessa maneira poderíamos contribuir melhor para a formação de uma nova classe de empresários, capaz de enfrentar e resolver os problemas que inevitavelmente surgem com o progresso industrial de uma nação em desenvolvimento. O tempo veio a confirmar o acerto das teses do saudoso professor. Cremos que isso explica porque, após um decênio de existência e evolução, a EAESP praticamente não mudou suas diretrizes de ensino, nem sua estrutura departamental. O que nesse período procuramos fazer foi enriquecer e renovar nosso acervo e ampliar nosso campo de atividade, estendendo-o para outros estados brasileiros e outros países da América do Sul . Também a Revista de Administração de Empresas em 1961 e cujo volume IV ora se encerra, resultou do esforço de integração das áreas administrativas, que teve como idealizar e primeiro mensageiro o Prof. KARL. A. BOEDECKER, de quem mais uma vez nos lembramos por ensejo deste X.° Aniversário de Escola de Administração de Empresas.

 

Raimar Richers

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