RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 35, n. 6, nov-dez 1995

Editorial: 

As organizações começam a morrer quando não são mais capazes de renovar. E morrem quando não são mais capazes de aprender.

A vida sem aprendizagem é impossível. A faculdade de aprender subsiste mesmo sem a plenitude dos sentidos, mesmo quando a aprendizagem resulta apenas da capacidade de percepção dos estímulos que diferenciam o antes do agora. A capacidade de aprender é um direito natural, em nível consciente e inconsciente, que a vida oferece em maior ou menor grau a todos, e em todos os seus instantes. Qualquer trabalho sadio deve permitir um permanente exercício consciente deste direito motivador da vida, o direito de aprender. Qualquer trabalho deve, antes de tudo, ser um motivado r potencial da vida. Este século tem sido descrito por muitas qualificações baseadas no avanço tecnológico ou nas chamadas conquistas materiais do homem. Entretanto, nada substitui o movimento gradativo de transformação dos seres humanos de fatores de produção em fatores de renovação organizacional como a marca de maior dignidade da espécie humana deste século. Em O fator renovação (Harbra, 1989), Robert H. Waterman Jr. aponta esta mudança de concepção de valor dos seres humanos como uma das características centrais para o sucesso competitivo. A renovação passa a ser a base da aprendizagem organizacional competitiva, o que dá sentido ao trabalho, a roda da vida. Os planos de incentivos falham porque não contemplam o ser humano como um fator de renovação e de aprendizagem organizacional. Continuam tratando os indivíduos como fatores de produção enquanto a própria organização já aprendeu que não pode mais deixar de aprender. Isto ocorre na vida pública e privada, nas organizações e nas próprias escolas. As organizações buscam a uniformidade, a previsibilidade e a ordem, atributos incompatíveis com as demandas competitivas atuais, e o ato de renovar, pelo simples fato de ser um fenômeno original-e muitas vezes irracional, sob a ótica da lógica dominante - representa uma desqualificação das verdades organizacionais, uma ameaça. O estudo das inovações tem demonstrado que as "mudanças vêm de fora", fora da racionalidade presente no sistema social da mudança. Já está na hora dos agentes de mudança e de gestão organizacional começarem a perceber que o "de fora" é "o de fora de controle". E fora de controle estão todos aqueles que aprenderam a renovar. Estamos deixando a direção da RAE. Foram quatro anos de obstinada luta de uma equipe que não se conformou apenas em construir a melhor revista de administração da América Latina, mas em transformar o velho paradigma acadêmico do "escrever para publicar" na legitimidade de um novo paradigma: o do "escrever para ser lido". Esperamos ter contribuído para a valorização do trabalho silencioso da reflexão e da pesquisa, ainda tão carentes em nosso país, abrindo oportunidades para novos talentos e oferecendo alternativas variadas de inserção e de espaço de publicações. A bimestralidade da RAE a torna hoje mais presente para quem escreve e para quem lê; a sua pioneira segmentação (RAE Cases, Ambiental, Executiva, Colaboração Internacional e Artigos) respeita as vocações e os talentos de quem publica e o tempo e o interesse de quem consulta; o Circuito Acadêmico é hoje um legítimo banco de teses e dissertações; o Circuito Executivo se firma como a base da RAE em separatas, o produto de maior potencial de crescimento da RAE. A RAE hoje disputa sozinha com revistas comerciais espaço nas prateleiras dos pontos de venda, nos canais de distribuição, nas agências de publicidade e na atenção dos leitores às malas diretas, um trabalho que tem resultado em um crescimento sistemático, mês-a-mês, do número de assinantes. Melhor seria que esta disputa fosse com outras revistas deste segmento de publicação, o que certamente significaria ganhos à ciência, tecnologia e à cultura de nosso país. Participar da edição de uma revista é um trabalho emocionante, contagiante e de constante aprendizagem. É preciso respirar vinte e quatro horas seguidas o clima de cada nova edição, todos os dias do ano, feriados, férias ou finais de semana. Mas é gratificante como ver um navio ir à agua após meses de trabalho no dique. É um enorme motivador potencial de renovação, de vida ... Todos aqueles que participaram conosco deste gratificante trabalho sabem do que estamos falando. A estas pessoas que colaboraram conosco, aos nosos parceiros, aos nossos leitores a certeza de nosso reconhecimento pelo muito que aprendemos e crescemos.

Prof. Marilson Alves Gonçalves

Diretor e Editor da RAE

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