RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 34, n. 3, maio-jun 1994

Editorial: 

"É mais fácil construir teorias do que admitir verdades."

Alguns historiadores observaram que quando os primeiros navegadores chegaram ao continente americano, ceros indígenas foram incampazes de ver as suas caveiras. Desprovidos do conceito de grandes embarcações, estes nossos ancestrais não tinham em seus registros mentais repertório capaz de decodificar imagens destes navios, razão por que "olhavam" mais não os "viam". Não tendo repertório, não os compreediam, não os compreendendo, os ignoravam, ignorando-os não os viam. Ao transpor a idéia que todos nós temos de "onda do mar" ao processo de evolução sobreposta das diversas fases de nossa civilização, Alvin Toffler, em A Terceira Onda (1980), identificou comportamento semelhante por parte de todos nós, somos incapazes de perceber o avanço sorrateiro de novas ondas evolutivas em meio à aparente desordem da onde "atual". Somos limitados em nossa visão das coisas e do mundo e limitados em nossa capacidade de interferir no curso efetivo dos fatos. Diante de nossas limitações, combatermos ou... ignoramos. Como Toffler humildemente reconheceu, é impossível conhecermos a verdade completa sobre qualquer coisa, mesmo quando nos utilizamos de metáforas tão poderosa quanto a associação que ele estabeleceu entre ondas e ciclo de vida evolutivo das culturas. Tomando verdades parciais como absolutas, inovações como modismos, interesses pessoais como demandas sociais, conflitos como discórdias ou ideologias como princípios somos incapazes - e muitas vezes nem mesmo queremos - de perceber a chegada gradativa de novas ondas. Não sendo de interesse, combatemos, não conseguindo ou não sabendo como combater, ignoramos, ignorando não vemos. Por razões semelhantes, a história tanto das organizações quanto de evolução tecnológica envolve muitas interpretações. Frequentemente, elas estão imbricadas. São histórias de miopias e de reações a mudanças onde a verdade foi trasnvestida por teorias e mecanismos de defesa tipicamente freudianos. A história da evolução da microinformática - e das organizações por ela não envolvida - não poderia ser diferente. É rica em exemplos antológicos destes mecanismos, mas também se destaca pela coragem de algumas organizações que optaram por encarar a verdade dos fatos tecnológicos e a realidade de mercado, ao invés de construir teorias. Esta edição comemora o aniversário de duas das mais importantes instituições brasileiras na área de educação. São cinquenta anos de uma instituição profundamente envolvida na construção do desenvolvimento e do pensamento econômico do país - a FGV - Fundação Getúlio Vargas - e a quarenta anos de uma Escola responsável por liderar a busca da excelência e a difusão daquilo que é mais moderno em gestão pública e privada - a EAESP - Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV. Convidaamos vários autores para discorrer sobre o processo de evolução desses cinquentas anos da Administração no Brasil. Foi um trabalho difícil abandonar a avaliação blind reviewe, juntos, editor e autores, encontramos o melhor formato e o mais fundamentado conteúdo no curto espaço de tempo que dispusemos, dentro da linha de seriedade editorial que tem pautado os 33 anos da RAE. Deste esforço resultou uma edição "híbrida" onde, as seções convencionais, acrescentamos às seções RAE Cases Especial e RAE Artigos Especial. Na RAE Cases Especial, a história da EAESP-FGV é resgatada com base em depoimentos que geraram dois estimulantes artigos. As demais contribuições foramaram a RAE Artigos Especial, uma seção contendo reflexões sobre o perfil, a evolução no período considerado e as tendências de algumas áreas e campos da Administração brasileira. Somos gratos a todos os autores que aceitaram o nosso convite, entendendo o espírito desta edição, colocando-se disponíveis e dividindo conosco os desafios envolventes da produção editorial. Parabéns FGV e EAESP!

 

Prof. Marilson Alves Gonçalves
Diretor e Editor da RAE

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