RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 33, n. 6, nov-dez 1993

Editorial: 

"O paradigma da especialização flexível exige mudança de enfoque do dividir para puder remar para o da unidade na diversidade"

Em sua magistral obra "The Entropy Law and the Economic Process" (1971), Nicholas Georgesen-Roegen nos lembra o que todo físico um dia acaba conhecendo: a diferença entre o calor contido nas águas do oceano e o calor gerado no interior de uma caldeira é que podemos utilizar o último, mas não o primeiro. A distribuição "equilibrada" do calor nas águas dos oceanos esconde uma situação desarticulada incapaz de gerar trabalho, enquanto que a distribuição de calor no interior de uma caldeira - aparentemente “desequilibrada''- é potencialmente rica para transformações energéticas úteis. Em outras palavras, a qualidade do calor de qualquer caldeira é maior do que a qualidade do calor dos oceanos. Confirmando o que o senso comum afirma, quantidade não é qualidade...
Vamos encontrar situação semelhante nas relações que se estabelecem na organização do trabalho intra e inter-organizacional. Não basta uma organização dispor de recursos humanos e materiais em quantidade e em qualidade de por si, mas o fator diferenciador de seu sucesso é a capacidade de articulação destes recursos para agregar valor. Isto é, a qualidade é um atributo de resultado e não de insumo. Curiosamente as organizações sempre buscaram articular recursos pelo lado do controle dos insumos, gerando estímulos a situações internas previsíveis, como se pudessem com isto compensar a turbulência ambiental. Premiam a previsibilidade das ações e dos comportamentos, gerando um oceano onde o “calor armazenado" é resultante muito mais dos atritos interdepartamentais mal resolvidos do que da acumulação de energia para o trabalho. A especialização flexível é uma resposta natural da organização do trabalho para esta questão. São várias organizações operando em rede, compartilhando uma estratégia empresarial comum. A flexibilidade de produção resultante é muito mais o resultado do trabalho conjunto da rede de unidades produtivas do que da flexibilidade de uma unidade específica. À semelhança do calor das caldeiras, a especialização flexível está voltada para a utilização agregada das parles, de forma a potencializar a utilidade do trabalho gerado pela rede, ao invés de dividi-lo em esforços isolados. Não é a quantidade de recursos de uma dada organização o que conta, mas a capacidade da mesma de cooperar, articulando-se com outras organizações produtivas na busca de resultados globais. Uma nova visão do mundo, interdependente e complexo, está mudando os paradigmas clássicos das teorias de Administração em direção a uma organização do trabalho que garanta mais qualidade do que quantidade produzida.
A partir desta edição, a RAE começa a explorar um de seus nichos naturais enquanto publicação acadêmica, o desenvolvimento empresarial e de recursos humanos. Partindo da plataforma criada pelo Circuito Executivo, a RAE se propõe a suprir o mercado de treinamento, de ensino e de educação continuada mediante pedidos de separatas de artigos por ela publicada. Por fax, telefone, ou correspondência, as áreas organizacionais de recursos humanos, empresas de treinamento, escolas, consultorias, professores e palestrantes podem contar com este novo produto de apoio às suas atividades que, pela qualidade gráfica e editorial da RAE, adiciona valor competitivo a quem dele se utiliza. Além disso, o produto "RAE em separata" estabelece um estreitamento nas relações fornecedor cliente. quando distribuído como cortesia sistemática ou eventual. Ainda, nesta edição, dentro do programa de melhoria contínua de nossas publicações, a RAE muda a diagramação de abertura de seus artigos, valorizando mais o trabalho artístico de seus ilustradores e a produção intelectual de seus autores.

 

Prof. Marilson Alves Gonçalves
Diretor e Editor da RAE

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