Gestão

Luisa Veras de Sandes-Guimarães

A utilização de novas tecnologias na gestão editorial de periódicos científicos parece ser essencial, pois as TICs permitem melhorar a eficiência dos processos propiciando o alcance do objetivo principal de periódicos, o impacto da publicação no meio acadêmico. Ao pensar a gestão de um periódico científico, seja ele impresso ou eletrônico, em acesso aberto ou restrito, um dos aspectos mais abordados refere-se aos seus custos de manutenção. No entanto, como afirmam Guanaes e Guimarães (2012) e Dubini e Giglia (2009), a análise do modelo de gestão de periódicos científicos é mais do que a simples avaliação dos custos e da viabilidade econômica, e deve considerar em especial a questão da sustentabilidade da revista.

Dubini e Giglia (2009) afirmam que a literatura de administração e economia define sustentabilidade como a reunião de três características: efetividade (alcançar os objetivos propostos), eficiência (minimizar os recursos utilizados para alcançar os objetivos propostos), durabilidade (a possibilidade de operar com o tempo), sendo que este último aspecto frequentemente implica na introdução de soluções inovadoras para lidar com um contexto em constante mudança (Dubini & Giglia, 2009).

Guanaes e Guimarães (2012) acrescentam que a sustentabilidade do periódico envolve, além dos custos, outros aspectos relacionados diretamente ao uso de plataformas online para publicação e edição de revistas científicas (acessibilidade, recuperação de informações, navegabilidade e interatividade), e também os parâmetros de qualidade que devem estar presentes em qualquer revista científica (avaliação por pares, conselho editorial, corpo editorial entre outros, como os citados por Sandes-Guimarães e Costa (2012)).

Em consonância com as questões de sustentabilidade apontadas anteriormente, para o presente trabalho, optou-se por estabelecer duas grandes categorias para a análise da gestão de uma revista científica: a científica e a administrativa. A maior parte dos aspectos relacionados à sustentabilidade foi inserida em alguma das categorias e para cada uma foram analisados os custos estabelecidos de acordo com a literatura da área. A seguir, apresenta-se um esquema que representa sinteticamente as funções editoriais envolvidas nas categorias de gestão científica e administrativa de periódicos.

 

Fonte: Sandes-Guimarães e Diniz (2014)

GESTÃO CIENTÍFICA

Em termos de gestão científica, Trzesniak (2009) considera os seguintes requisitos como essenciais para que um periódico possa ser considerado científico: “Levar aos seus leitores-pesquisadores o conhecimento novo e relevante dentro de sua área temática; Fazê-lo a tempo e hora e perenizar-se (Trzesniak, 2009, p. 88)”.

Ambos os requisitos, se conectam com as questões de efetividade e durabilidade apontadas por Dubini e Giglia (2009) e a questão da qualidade apontada por Guanaes e Guimarães (2012). A divulgação de conhecimento de qualidade aos pesquisadores da área, com regularidade e continuamente, são aspectos que se relacionam com o que Trzesniak (2009) chama de garantia de perenidade (conselho de política editorial) e garantia de credibilidade científica (editores, corpo editorial científico e revisores ad hoc), que são detalhados a seguir.

Garantia de perenidade e de credibilidade científica

Comitê de Política Editorial

De acordo com Trzesniak (2009), a perenidade de uma revista científica é garantida por dois fatores principais: a retaguarda institucional (associação científica, instituto de pesquisas, programa de pós-graduação etc.), que deve respaldar formalmente o periódico, e o Comitê de Política Editorial. Esse último consiste em um grupo de 4 a 9 membros, composto por pessoas da instituição de retaguarda, de outras instituições de pesquisa, das áreas que utilizam a informação publicada pelo periódico, outras pessoas que a entidade de retaguarda julgar conveniente e, por fim, o próprio editor científico da revista (Trzesniak, 2009).

O comitê de política editorial é um grupo que atua e toma decisões em conjunto e que, de acordo com Trzesniak (2009), possui, dentre outras, as seguintes atribuições principais: elaboração da política editorial do periódico; discussão e aprovação de regras para constituição do próprio comitê, do corpo editorial científico e para escolha do editor científico; elaboração da missão e do regulamento da revista; indicação de critérios para aceitação de artigos; discussão e aprovação do balanço e do orçamento do periódico.

Peer Review: Corpo Editorial Científico, Consultores ou Revisores Ad Hoc

Bedeian, Van Fleet e Hyman III (2009) lembram que por mais de 300 anos a revisão por pares (peer review) tem sido o critério principal para avaliar a qualidade e a credibilidade de artigos científicos submetidos à publicação em periódicos. A expertise dos avaliadores é essencial para que contribuições relevantes e de qualidade sejam inseridas na literatura de uma área do conhecimento. Além de exercer um papel crucial na determinação do “destino” das ideias (publicar ou não), a revisão por pares também influencia no avanço da carreira de pesquisadores, já que a publicação é necessária para a promoção e a estabilidade na carreira acadêmica e se traduz em questões econômicas relacionadas ao salário, bolsas e financiamento de pesquisas (Bedeian et al., 2009).

Apesar de seus problemas, apontados por Van Raan (2003), como a presença de subjetividade na análise, a falta de reconhecimento da qualidade de alguns estudos e viés negativo contra pessoas mais jovens ou recém-chegadas no campo, a revisão por pares é e deve permanecer como procedimento principal para o julgamento de qualidade de publicações. Como afirma Martínez (2012), esse sistema se institucionalizou e segue sendo parte central na validação de publicações científicas e é aceito pela maioria dos pesquisadores como a melhor alternativa dentre as disponíveis. Para efetuar a avaliação por pares, as revistas científicas podem contar com dois grupos de pesquisadores: corpo editorial científico e os revisores ad hoc.

Corpo Editorial Científico e Revisores Ad Hoc

De acordo com Trzesniak (2009, p. 90) o corpo editorial científico é um “colegiado necessariamente multi-institucional” e sua composição deve primar pela diversidade de pesquisadores tanto em termos científicos, cobrindo todas as áreas do conhecimento às quais o periódico se dedica, quanto em termos geográficos, abrangendo as regiões nas quais o periódico pretende circular e onde se localiza seu público-alvo. Ainda sobre esse colegiado, Lo Bianco et al. (2002) o designa como:

[...] grupo de pesquisadores, eleito ou escolhido, para auxiliar o editor na tomada de decisões sobre os originais a serem publicados (decisões sobre o encaminhamento do processo editorial, escolha de consultores ad hoc, discussão de dúvidas sobre pareceres e sobre a publicação ou rejeição de originais). Este grupo pode ter um mandato e é consultado com frequência pelo editor. Deve ser integrado por pesquisadores reconhecidos na área e subáreas nas quais a revista publica (Lo Bianco et al., 2002, p. 6).

De acordo com Trzesniak (2009), o corpo editorial científico se difere do comitê de política editorial, pois o primeiro não atua em conjunto e nem se reúne para discutir algum assunto ou tomar alguma decisão, são pesquisadores que trabalham sozinhos e interagem separadamente com o editor. Além disso, o envolvimento do corpo editorial com o conteúdo dos artigos é maior, “[...] preocupando-se com a uniformidade, a continuidade, a qualidade e o rigor científico do que é publicado (Trzesniak, 2009)”.

Os pareceristas ou revisores ad hoc são avaliadores que não fazem parte do corpo editorial científico e são consultados para avaliar determinado artigo submetido à revista. Não possuem, no entanto, nenhum vínculo permanente com o periódico e encerram sua participação ao término da avaliação do artigo que lhe foi designado (Trzesniak, 2009; Lo Bianco et al., 2002).

Como sugerem Bedeian et al. (2009), de um ponto de vista mais amplo, a influência dos membros do corpo editorial vai além da simples determinação de quais pesquisadores devem receber aprovação para publicar suas descobertas. Suas recomendações sobre quais manuscritos devem ser publicados e as diretrizes que eles fornecem aos autores para revisões estabelecem os padrões científicos de uma disciplina (Bedeian et al., 2009). Rockwell (2006) explica que as opiniões dos membros desse corpo de voluntários acerca de questões como quais técnicas são atuais, válidas e apropriadas, como os dados devem ser analisados e apresentados e o quão rigorosos devem ser os autores ou o quão especulativos eles podem ser na interpretação dos dados, se tornam de fato padrões para a área do conhecimento.

Kirschbaum e Mascarenhas (2009) ao tentarem entender as diferenças entre revistas nacionais e estrangeiras em termos de papel dos revisores e dos editores no processo de avaliação de originais, identificaram que para as revistas estrangeiras analisadas, os pareceres dos avaliadores servem apenas como uma espécie de consultoria, mas na verdade é o editor quem decide sobre a aprovação ou rejeição de um artigo, apresentando um papel essencial na construção do conhecimento. Já no caso das revistas brasileiras, os revisores tem um alto grau de autonomia e são considerados guardiões do processo de construção do conhecimento, ou seja, “enquanto o artigo não se adequar as suas exigências, eles não serão publicados na revista (Kirschbaum & Mascarenhas, 2009, p. 12)”.

Equipe de Certificação Científica

Para a publicação eficiente de um periódico científico, Trzesniak (2009) afirma ser essencial que sejam separadas as tarefas administrativas das científicas (relativas ao conteúdo publicado). Deste modo, seria necessário designar dois editores, um executivo / gerente e um científico. É importante que o editor científico não seja onerado com tarefas que não são de sua especialidade e que poderiam ser realizadas por outras pessoas, já que normalmente o editor científico é também um pesquisador da área, que já possui outras atribuições além da edição e gestão da revista. O editor executivo, por ser, de acordo com Trzesniak (2009), o responsável pelos aspectos de caráter não científico do periódico, foi inserido na categoria de gestão administrativa.

Población et al. (2003) definem o editor científico como “pesquisador, de alto nível, responsável pela execução da Política Editorial e pelo conteúdo científico do periódico (p. 499)”. Como atividades científicas a serem realizadas por esse editor e sua equipe Trzesniak (2009) identificou as seguintes:

[...] natureza e ética dos anúncios; execução da política editorial; controle das dimensões de qualidade da revista; recebimento de manuscritos; estoque e encomenda de artigos; articulação com membros do corpo editorial; contato e encaminhamento de trabalhos aos assessores científicos; decisão final sobre a publicação dos trabalhos; preparação de originais; revisão integral de provas (Trzesniak, 2009, p. 93).

Tanto para auxiliar o editor científico quanto para realizar a mediação entre as esferas gerencial e científica o periódico pode contar com um ou mais editores assistentes, tendo em conta o volume de trabalho. Esse editor deve ser um pesquisador da área e suas tarefas são designadas pelo editor científico, que também pode dar liberdade a esse editor para tomada de decisões, de acordo com a maturidade científica e tempo de exercício no cargo (Trzesniak (2009) afirma que nesse momento o editor passa a ser denominado adjunto) (Trzesniak, 2009). Para Gomes (2010), o editor assistente:

[...] preocupa-se com o recebimento, a organização e a sistematização dos processos de seleção e arbitragem de textos em geral, que são a matéria-prima e razão de ser de uma publicação cientifica. Deve possuir amplos conhecimentos sobre as formas e meios eletrônicos de editoração de conteúdo, que supõe as fases de captação, avaliação e preparação editorial para impressão, além de capacidade de coordenação de equipe editorial (Gomes, 2010, p. 166).

Trzesniak (2009), Gomes (2010) e Población et al. (2003) ainda apontam a existência em algumas revistas de editores com outras responsabilidades científicas, como: editor associado, “especialista da área e/ou pesquisador que participa frequente e intensivamente da preparação científica de originais nas áreas de sua especialidade [...] (Población et al., 2003, p. 499)”, editor de seção, responsável por alguma seção permanente do periódico, editor convidado, chamado especialmente para coordenar a edição de determinado fascículo voltado a um assunto de sua especialidade (Trzesniak, 2009) e editor consultivo, “profissional de larga experiência, com conhecimentos de editoração e domínio da comunicação científica, a quem o Editor Científico recorre para se aconselhar e discutir as suas dúvidas e as questões relativas à visibilidade e ao impacto da publicação (Población et al., 2003, p. 499)”.

Custos da gestão científica

Os custos da gestão científica estão relacionados essencialmente ao que Dubini (2011) chama de certificação de conteúdo. A atividade que a certificação de conteúdo envolve é a gestão do processo de revisão por pares, que inclui de acordo com Houghton e Oppenheim (2010) o gerenciamento das submissões recebidas, a revisão inicial para verificação de adequação à política editorial da revista (desk review) e o gerenciamento do processo de revisão por pares externos. Tudo isso está ligado aos esforços que o periódico dispende para selecionar os artigos de melhor qualidade para publicação.

Os fatores que influenciam esse custo são, de acordo com Dubini (2011): número de artigos recebidos; taxa de rejeição do periódico; número de avaliadores por artigo; número de rodadas de revisão. De fato, cada artigo submetido passa pelo processo de revisão por pares e quando uma grande quantidade de artigos é rejeitada, isso, por consequência, aumenta os custos daqueles aceitos para publicação (Costs and business models, 2004). Em alguns casos, editores científicos pré-selecionam os manuscritos recebidos diminuindo o número daqueles que efetivamente passam pela revisão por pares, o que reduz os custos de encontrar avaliadores e gerenciar o processo de avaliação, aumentando, entretanto, os custos internos (Dubini, 2011).

Dubini (2011) identificou em sua pesquisa, realizada com alguns dos grandes Publishers comerciais e abertos (Elsevier, Sage, Taylor & Francis, Wiley-Blackwell, Springer, PloS etc.), que, para, por um lado, garantir a reputação e, por outro, controlar os custos a maioria dos Publishers possui em seu portfólio periódicos com taxas de rejeição diferenciadas, apresentando assim, um grupo de periódicos com altas taxas de rejeição, reputação e impacto e um outro grupo significativo de periódicos mais acessíveis.

O custo médio do processo de certificação de conteúdo no estudo realizado por Dubini (2011) é de cerca de 250 USD por artigo publicado, o que inclui os custos internos (salário pago ao pessoal da revista responsável por essa etapa) e externos do processo de organização e gerenciamento da revisão por pares. Outro estudo estimou um valor similar, que gira em torno de 200 USD por artigo publicado (Costs and business models, 2004). No entanto, dados deste último estudo citado ressaltam que, em entrevistas com responsáveis por periódicos científicos, esse valor parece ser relativamente baixo, provavelmente pelo fato de que o processo de revisão por pares compreende algumas variáveis (como o próprio tempo de envolvimento da equipe) que não são facilmente representadas em termos monetários (Costs and business models, 2004).

Houghton e Oppenheim (2010) estimaram também os custos que se incorrem no processo de peer review em si, em termos do custo de oportunidade do tempo dos acadêmicos que avaliam os artigos. Sua estimativa, sem considerar a revisão em si, somente a gestão do processo por parte da revista, ficou em média £344 por artigo publicado. No entanto, considerando uma média 2.5 avaliadores gastando em média 4.5 horas por revisão, os custos seriam aumentados em £630 por artigo avaliado. No fim das contas, considerando a questão apontada anteriormente de que o custo dos artigos avaliados e não publicados aumenta os custos dos publicados, Houghton e Oppenheim (2010) estimaram um total de £1,390 por artigo publicado.

No entanto, os custos de todo este processo variam significativamente entre periódicos, dependendo da extensão e da complexidade do processo de revisão por pares e também da taxa de rejeição do periódico (Dubini, 2011; Costs and business models, 2004). Estima-se que os custos da certificação de conteúdo compreendam entre 10% e 30% dos custos totais de publicação do periódico sendo com frequência um dos itens mais representativos (Costs and business models, 2004).

GESTÃO ADMINISTRATIVA

A gestão administrativa do periódico, impresso ou eletrônico, refere-se aos “processos de produção editorial e gráfica, de gerência administrativa e financeira, de comunicação e de marketing (Dias, 2006, p. 80)”. Os profissionais envolvidos nestas atividades não precisam ser pesquisadores da área na qual o periódico se insere, mas precisam possuir os conhecimentos técnicos necessários para execução das atividades e também necessitam estar em sintonia com os objetivos e com a política editorial da revista. É muito importante que o periódico possua uma equipe adequada para realização das atividades editoriais, afinal, como afirma Trzesniak (2009):

Preparar uma revista científica exige uma grande dedicação e implica dar seu tempo para melhorar o trabalho de outros pesquisadores, em detrimento de seus próprios projetos. Somente com o envolvimento de uma equipe isso pode ser feito sem que o editor fique seriamente prejudicado em sua carreira de pesquisador (Trzesniak, 2009, p. 97).

Gestão administrativa e financeira

Para a produção adequada de um periódico científico e para garantir seu bom funcionamento como veículo de comunicação, Dias (2006) afirma ser imprescindível a existência de determinados processos administrativos, que incluem: “a manutenção de instalações e equipamentos; a gerência financeira e o controle de fluxo de caixa e pagamentos; a proteção dos direitos sobre a propriedade intelectual e autoral (p. 88)”. Trzesniak (2009) também sugeriu como atividades gerenciais de um periódico científico: “aspectos administrativos, financeiros e de produção; levantamento de recursos financeiros e humanos para a revista; acompanhamento de serviços gráficos; distribuição e venda; divulgação; venda de anúncios (p. 93)”

É essencial que a equipe se preocupe com a manutenção de uma infraestrutura adequada para o processo de edição do periódico, prevendo a existência do “espaço físico a ser utilizado, dos equipamentos e recursos tecnológicos prioritários – computadores [...], impressoras, scanners, softwares de edição de texto e de layout, [...] instalação de rede informática, contratação de servidor seguro para arquivamento e publicação de arquivos (Gruszynski, Golin, & Castedo, 2008, p. 10)”. Um dos personagens principais dessa equipe administrativa é o editor executivo, que de acordo com Gomes (2010) apresenta as seguintes características e responsabilidades:

[...] o editor executivo possui um nível de informação geral e estrutural do periódico, com amplos conhecimentos administrativos e técnicos. É importante, por exemplo, que ele entenda todas as etapas da editoração, mesmo que não esteja diretamente envolvido em sua execução. É ainda responsável pela gestão dos recursos financeiros e pela observação constante das tendências editoriais e de mercado, tanto como de avaliação e visibilidade editoriais, oferecendo ao editor-chefe e ao comitê editorial informações e parâmetros essenciais para balizar as decisões a serem tomadas (Gomes, 2010, p. 166).

Produção editorial e gráfica

Em termos de produção editorial e gráfica, os periódicos impressos e eletrônicos adotam basicamente os mesmos procedimentos, de acordo com Dias (2006): tratamento e edição de textos e imagens, elaboração e edição de layouts para capas e miolo, formatação e diagramação de conteúdos, revisão final de provas e, finalmente, impressão / publicação em meio eletrônico. Gomes (2010) lembra que “neste momento, entende-se que os níveis possíveis de qualidade do conteúdo já devem estar assegurados pelos processos de pré-seleção, análise editorial e avaliação por pares (p. 167)”. Essa é uma das etapas essenciais para que o periódico científico alcance os padrões de qualidade formal e técnico-normativos exigidos especialmente de agências de fomento, sistemas de avaliação e bases de dados (Trzesniak, Plata-Caviedes, & Córdoba-Salgado, 2012; Gomes, 2010).

A etapa de edição de textos já se inicia no próprio processo de revisão por pares e se completa, para os artigos aceitos, com a revisão de ortografia, de gramática e com a normalização do texto de acordo com as regras adotadas pelo periódico (ABNT, APA, Vancouver etc.) (Gruszynski et al., 2008). Faz também parte desta etapa a tradução e revisão dos resumos e textos completos em outras línguas, de acordo com os idiomas de publicação do periódico.

A edição de layout do periódico pressupõe a elaboração preliminar de um projeto gráfico para a publicação, no qual são definidas as características que atribuem à coleção uma unidade visual, como: “diagrama [...], tipografia, estilos para ilustrações (tabelas, quadros, fotos) e recursos de produção a serem utilizados (Gruszynski et al., 2008, p. 11)”. No caso das revistas impressas, a criação de uma arte para a capa que utilize cores e imagens que chamem a atenção é importante, pois é por meio da capa que se realiza o primeiro contato com os leitores da revista (Gruszynski, Golin, & Castedo, 2008). Para a revista eletrônica, Gruszynski et al. (2008) afirmam que: "[...] o trabalho de projeto gráfico é substituído pela definição da arquitetura da informação e interface do site – com a proposta de consistência entre as páginas, tipos de recursos utilizados pelos artigos, formato dos fascículos e textos (PDF, html), sistemas de busca, ferramentas contextuais (mecanismos de recuperação contextualizada do conteúdo) e acessibilidade (Gruszynski et al., 2008, p. 12)".

Posteriormente, passa-se à etapa de diagramação dos artigos, de acordo com as determinações do projeto gráfico, que significa basicamente distribuir as ilustrações e os textos nas páginas do periódico. Depois da diagramação é realizada a leitura ou revisão de provas para identificar se há alguma correção a ser feita nos textos ou no layout e, finalmente, com tudo pronto e devidamente revisado e aprovado pelo editor científico, a revista pode ser impressa e publicada online (Gruszynski et al., 2008).

Sendo uma etapa não científica da produção de um periódico, praticamente todos os processos envolvidos na produção editorial e gráfica podem ser realizados por uma equipe externa de prestadores de serviço, caso a revista possua recursos financeiros para isso. Como afirma Gomes (2010), “são muitos os exemplos de revistas que têm as etapas finais de sua produção sendo executadas por uma editora universitária [...] assim como há outras que [...] repassam toda a produção final para uma editora comercial ou mesmo empresa de serviços gráficos (Gomes, 2010, p. 167)”.

Comunicação e Marketing

Dias (2006) sugere que o processo de edição de periódicos científicos também precisa contar com atividades de comunicação (disseminação e divulgação) e de marketing (comercialização e distribuição). A disseminação tem por objetivo fazer com que o periódico alcance a atenção da comunidade científica e de seus leitores, para que seus artigos, que já apresentam qualidade gráfica e científica, sejam acessados, lidos e utilizados pelos pesquisadores.

Para isso, é necessário divulgar e promover a visibilidade da publicação, o que se dá essencialmente por meio da indexação em diretórios e bases de dados referenciais, de citações ou de texto completo, que facilitam a recuperação da informação por parte dos pesquisadores, os quais possuem cada vez menos tempo para apreender toda literatura de sua área (Gruszynski et al., 2008; Dias, 2006). Dias (2006) afirma que muitos países têm optado por desenvolver suas próprias bases de dados regionais para auxiliar no aumento da visibilidade e difusão da literatura produzida por seus pesquisadores, “em face das restrições que geralmente encontram nas bases de dados controladas pelos países ricos, da ciência mainstream (Dias, 2006, p. 98)”.

Em termos do que Dias (2006) chama de estratégias de marketing, a comercialização refere-se ao processo de venda do periódico e captação de recursos para a publicação (Dias, 2006), sendo necessário que a equipe editorial defina a tiragem para cada edição, bem como as possíveis formas de aquisição (assinatura, exemplares avulsos, permuta etc.) e os formatos de disponibilização (impresso e online) (Gruszynski et al., 2008). Dias (2006) entende a distribuição como processo de intermediação entre a editora e os seus leitores, compreendendo a gestão dos canais de venda direta ou indireta (por agentes intermediários) de exemplares e a logística para sua entrega aos consumidores finais.

Custos da gestão administrativa

Com relação aos custos das atividades de gestão administrativa, Dubini (2011) buscou dividi-los em duas categorias. Primeiramente a publicação do conteúdo, que considera os custos de formatação, referência cruzada, metadados, composição tipográfica, edição, transformação em HTML e transferência de dados para a plataforma que hospeda o conteúdo (Dubini, 2011). Posteriormente, a gestão e preservação do conteúdo, que considera os custos de depreciação da plataforma instalada ou o custo de licenciamento da plataforma, os custos de manutenção anual de software e hardware e os custos com recursos humanos associados à gestão da plataforma (Dubini, 2011). Percebe-se que a autora não incluiu na sua análise os custos da eventual impressão da revista, somente sua publicação em ambiente eletrônico.

Dubini (2011) identificou que os custos de publicação de conteúdo variam entre 170 e 400 USD por artigo e dependem das decisões tomadas em termos de “fazer ou comprar”, ou seja, ter uma equipe interna para realizar as tarefas ou terceirizá-las, e também do tamanho do periódico. Houghton e Oppenheim (2010) estimam que a publicação de conteúdo custe em média £480 por artigo publicado, para edição e revisão de provas, e em média £335 para diagramação e composição tipográfica em edições impressas. Além disso, caso o artigo possua ilustrações e gráficos, adiciona-se mais £45. No caso de periódicos editados somente em formato eletrônico, os autores estimam que os custos de diagramação, composição tipográfica, ilustrações e gráficos, diminuam em 75%. Houghton e Oppenheim (2010) consideraram também os custos de preparação e processamento de conteúdos do periódico que não são artigos científicos, como as capas, índices, editoriais, revisões de literatura e resenhas de livros. Considerando que cerca de 14% do conteúdo de um periódico é composto por tais partes, os autores estimaram um valor de cerca de £100 por artigo publicado, sendo que, como no caso anterior, caso o periódico seja somente eletrônico, os custos diminuem em 75%. Estima-se que todo esse processo de publicação de conteúdo corresponda a cerca de 30% dos custos totais de publicação de um periódico (Costs and business models, 2004).

Já com relação aos custos associados à gestão, disponibilização e preservação de conteúdos em plataformas digitais, Dubini (2011) identificou que tais custos podem variar bastante, dependendo do fato da plataforma ser proprietária ou baseada em software livre, da idade e das características da plataforma, do número de artigos e documentos armazenados e da complexidade das plataformas em termos de serviços oferecidos aos autores e leitores. Portanto, a incidência do investimento na plataforma no preço dos artigos é difícil de calcular e mostra ser bastante variável entre os Publishers estudados (Dubini, 2011). Já os custos de manutenção da plataforma são mais fáceis de serem contabilizados e os Publishers que Dubini (2011) entrevistou relataram gastos anuais variando de 170.000 a 400.000 USD, e sua incidência nos custos por artigo dependerá do número de periódicos editados e do número de artigos publicado por periódico.

Dubini (2011) afirma que a disponibilidade de plataformas de publicação de periódicos baseadas em software livre permitem a drástica redução dos custos do processo de certificação, publicação e gestão de conteúdo, reduzindo consequentemente as barreiras para publicação de periódicos por parte de grupos de pesquisadores e favorecendo a criação de novos periódicos. De fato, Meirelles (2009) ressalta que a utilização de sistemas baseados no modelo Open Access, como o Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER), "[...] promove mais do que a transposição de métodos tradicionais para a gestão via sistema, mas também novos procedimentos, técnicas e mecanismos de editoração que otimizam a gestão das revistas e proporcionam um processo editorial mais ágil, a um menor custo (Meirelles, 2009, p. 105)".

Referências

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01/12/2016 - 09:31

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