Comunicação do conhecimento e periódicos científicos

Luisa Veras de Sandes-Guimarães

A atividade de pesquisa é de extrema importância para o desenvolvimento da ciência, pois propicia a geração de novos conhecimentos, que podem ser utilizados para melhor compreender um fenômeno ou para desenvolver novas pesquisas. O fluxo da informação é constituído de um ciclo contínuo que envolve os processos de construção, comunicação e uso do conhecimento (Le Coadic, 1996). Nesse sentido, o trabalho de pesquisa e investigação científica não tem um fim em si mesmo, a comunicação dos resultados, as críticas e as citações subsequentes fazem parte do processo de construção do conhecimento (Ziman, 1979).

A comunicação exerce um papel essencial na comunidade científica, na medida em que assegura o intercâmbio de informações sobre pesquisas em andamento e novos conhecimentos gerados, garantindo o constante contato entre cientistas e, nessa medida, contribuindo para aperfeiçoar conhecimentos existentes e a produção de novos conhecimentos. Essa etapa de comunicação objetiva “transferir o conjunto de conhecimentos gerados a partir da investigação científica, viabilizando novas reflexões e novos avanços” (Carvalho, 2011, p. 25).

Mueller e Passos (2000) lembram que o novo conhecimento deve ser submetido ao exame de outros cientistas (pares) que irão avaliar sua qualidade e validade. Para que o conhecimento seja reconhecido como científico deve, também, ser publicado, sendo o periódico o veículo mais utilizado para tal finalidade, embora ocorram variações de uma área do conhecimento para outra.

Pode-se dizer que a comunicação científica existe desde que se iniciaram as primeiras pesquisas.  Os gregos antigos foram os primeiros a utilizar a fala (nos debates) e a escrita (nos manuscritos) como forma de comunicação das atividades e pesquisas realizadas. Com o advento da imprensa, no século XV, a produção de textos impressos aumentou rapidamente e o livro tornou-se um importante instrumento para transmitir os resultados de pesquisas. Outro meio importante de comunicação eram as correspondências pessoais. Durante um longo tempo, portanto, esses foram os principais meios utilizados para a comunicação científica. No entanto, os livros demoravam muito tempo para serem publicados, o que, certamente, impedia que a ciência se desenvolvesse no ritmo desejado (Meadows, 1999).

Em meados do século XVII surgiu um novo meio para a divulgação científica: o periódico científico. Segundo Meadows (1999), a ideia de se criar uma publicação periódica surgiu na Royal Society de Londres. Até essa época, a difusão de informações sobre novas pesquisas era realizada por meio de correspondências, mantidas pelo secretário da sociedade, Henry Oldenburg. No entanto, a quantidade de cartas acumuladas passou a trazer um grande ônus à Royal Society, e pensou-se em reunir as mais importantes em uma publicação a ser editada periodicamente.

Apesar de terem sido os britânicos os primeiros a pensar na ideia, foi na França, em janeiro de 1665, que Dennis de Sallo criou o primeiro periódico: o Journal des Sçavans (posteriormente intitulado Journal des Savants), dedicado a publicar notícias sobre o que acontecia na Europa na chamada “república das letras”. Tomando conhecimento disso, em março do mesmo ano, a Royal Society iniciou a publicação de seu periódico, o Philosofical Transactions, o qual continua sendo publicado até o momento. Desse modo, a introdução do periódico significava a formalização da comunicação científica, permitindo a disponibilização das pesquisas por um longo período de tempo e para um público amplo. Os periódicos passaram, então, a ser amplamente utilizados para a comunicação do conhecimento. Ainda segundo Meadows (1999), os periódicos contribuem para o reconhecimento de prioridade da descoberta científica, ao colocar a data de recebimento do artigo. Mais que isso, são também responsáveis por garantir que seja publicado material de qualidade por meio da avaliação pelos pares.

Os periódicos científicos apresentam algumas funções que são essenciais para a comunicação científica:

1.      Difusão / Disseminação do conhecimento;

2.      Preservação do conhecimento;

3.      Definição de prioridade científica, funcionando como instrumento de reconhecimento científico;

4.      Certificação do conhecimento assegurando o padrão de qualidade da ciência (Suaiden, 2008; Targino & Garcia, 2008; Agha & Fowler, 2015).

Os periódicos científicos, no contexto acadêmico, apresentam uma forte relação com o “[...] sistema de recompensa acadêmica e com o reconhecimento dos pares, exercendo papel vital na validação das pesquisas executadas” (Targino & Garcia, 2008, p. 45). 

Referências

Agha, R. A., & Fowler, A. J. Celebrating 350 years of academic journals. International Journal of Surgery19, 146-147. DOI: 10.1016/j.ijsu.2015.05.030

Carvalho, K. de C. (2011). Revista científica e pesquisa: perspectiva histórica. D. A. Población, G. P. Witter, L. M. S. V. C. Ramos, & V. M. B. de O. Funaro (Orgs.), Revistas científicas: dos processos tradicionais às perspectivas alternativas de comunicação (pp. 23-42). Cotia: Ateliê Editorial.

Le Coadic, Y.-F. (1996). A ciência da informação. Brasília: Briquet de Lemos.

Meadows, A. J. (1999). A comunicação científica. Brasília: Briquet de Lemos.

Mueller, S. P. M., & Passos, E. J. L. (2000). As questões da comunicação científica e a ciência da informação. In S. P. M. Mueller & E. J. L. Passos (Orgs.), Comunicação científica (pp. 13-22). Brasília: Ed. da UnB.

Suaiden, E. (2008). Como gerir revistas científicas. In S. M. S. P. Ferreira & M. das G. Targino (Orgs.), Mais sobre revistas científicas: em foco a gestão (pp. 9-13). São Paulo: Editora Senac.

Targino, M. das G., & Garcia, J. C. R. (2008). O editor e a revista científica: entre o feijão e o sonho. In S. M. S. P. Ferreira & M. das G. Targino (Orgs.), Mais sobre revistas científicas: em foco a gestão (pp. 41-72). São Paulo: Editora Senac.

Ziman, J. (1979). Conhecimento público. Belo Horizonte: Itatiaia.

 

02/12/2016 - 13:32

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