GV-executivo, vol. 6, n. 1, jan-fev 2007

Editorial: 

As teorias e abordagens diversas quanto à questão da liderança deixam claro que liderar não é fácil. Não restam dúvidas de que o ser humano necessita de líderes. As razões podem ser diversas, mas estão ancoradas em nossa condição biológica, um dos fundamentos para nossa construção enquanto seres sociais.

Desde o primitivo homo sapiens, ensaiando seus primeiros passos, até complexos arranjos sociais, como Estados nacionais, grandes empresas e universidades, todos parecem necessitar de líderes e de lideranças. Portanto, não se deve lamentar a necessidade, mas simplesmente reconhecê-la como um dado de realidade.

As empresas e o mundo do management voltaram seus interesses para o fenômeno da liderança nos últimos tempos. Como liderar eficazmente tornou-se o foco dos que têm que fazer as coisas acontecerem. Várias propostas surgiram, mas a eficiência de todos esses recursos acaba sempre sendo duvidosa e incerta. Será que se conseguirá desenvolver líderes eficazes a tempo?
Volta-se a uma questão clássica, em que me permito parafrasear e utilizar Platão. Se a virtude, no sentido grego de competências e capacidades, pode ser ensinada, indagava o filósofo ateniense, então por que o filho de Péricles não foi um estadista? Questão similar poderia ser feita para um número razoável de herdeiros de impérios empresariais, que não conseguem reproduzir o talento empreendedor de seus antecessores.

Sem querer retroceder à explicação da liderança como excepcionalidade, e de líderes como outliers da espécie, há que se reconhecer que poucos são capazes de se destacar. Talvez seja mais razoável e honesto dizer que todos temos algumas aptidões para liderar e que tais aptidões podem vir as ser desenvolvidas mediante a conscientização e pela adoção e engajamento em programas e processos de treinamento para a liderança.

Mas, com toda certeza, não se podem assegurar resultados. Na liderança, como em todo o mais, é sempre difícil aceitar o fato de que não somos iguais. Alguns são melhores do que outros, se não em tudo, felizmente, pelo menos em alguns aspectos. Há aqueles que desenvolvem suas aptidões de líderes com mais rapidez, e de fato desabrocham em grandes líderes. Outros, submetidos ao mesmo processo, terminam em patamares bem mais modestos, chegando a terem que reconhecer que não possuem lá muitas condições de liderar.

Depois de mais de dois milênios, a pergunta feita por Platão ainda não foi respondida. Mas temos que nos habituar à carência de lideranças em quantidade suficiente, assim como aceitamos a insuficiência de renda, de infra-estrutura e até mesmo de felicidade pessoal. Na falta de lideranças, vamos fazer o melhor possível mesmo sem elas.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e Editor

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