GV-executivo, vol. 5, n. 5, nov-dez 2006

Editorial: 

Diferentemente das pessoas, cuja fatídica trajetória do berço à sepultura não admite desvios, as organizações têm a chance de uma vida muito mais longa. Em alguns casos, chegam a durar séculos - como no caso de algumas universidades; mas, em outros, suas vidas também podem ser curtas. Para tomar um exemplo local, considerando-se um período de 30 anos (1973-2003), observamos que aproximadamente 40% das empresas que estavam na primeira edição da pesquisa Maiores e Melhores, da revista Exame, desapareceram em 2003.

No entanto, existem algumas empresas que já atingem quase dois séculos de existência. Exemplos são a Peugeot francesa e a Du Pont norte-americana. Talvez aqui esteja uma das mais intrigantes questões sobre o tema do envelhecimento e da capacidade de, paradoxalmente, envelhecer sem ficar velho. São empresas capazes de, continuamente, renovar-se. O que acontece com essas "senhoras" que parecem superar todas as expectativas e sobreviver às suas netas e bisnetas?

As explicações correntes sobre renovação organizacional apontam para uma capacidade inesgotável de as empresas se renovarem. Muitos dos "produtos" de consultoria vendidos sob a rubrica de change management alimentam esta expectativa. No outro extremo, porém, encontramos os partidários de concepções menos otimistas a lembrarem que as empresas, assim como as pessoas, carregam a indelével marca do momento de sua criação.

Ninguém pode fugir ao fato de que sua vida começa a ser contada a partir do momento de seu nascimento e que as capacidades declinarão inevitavelmente a partir de certo momento. Transpondo este argumento para as empresas, dir-se-á que empresas podem se renovar, passar por muitos processos de mudança, mas que é impossível fugir ao determinismo da idade e que, como os seres vivos, organizações acabam perdendo flexibilidade e capacidade de apreender à medida que se afastam das datas de suas fundações. Atualmente algumas empresas centenárias do setor automotivo parecem confirmar esta posição.

Há limites notórios no que diz respeito ao oferecimento de um receituário para a perenidade de empresas. Mas é sempre indispensável olhar o exemplo das empresas mais longevas e ver o que fizeram e continuam a fazer. Se continuarmos com as analogias biológicas, tão comuns em administração, diríamos que o fundamental é nunca se aposentar. O seu correspondente empresarial seria nunca considerar a visão plenamente realizada, nunca considerar que as metas foram atingidas e que é necessário sempre prosseguir. Como disse certa vez um velho e heróico general, os grandes soldados não morrem, mas se diluem nas brumas da história.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e Editor
 

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