GV-executivo, vol. 5, n. 4, set-out 2006

Editorial: 

A internacionalização é vista de diversas perspectivas. O mainstream a apresenta como a solução de todos os problemas e a consecução de um estágio de progresso desejável para todos. Atualmente essa concepção é a que se manifesta no discurso da globalização. A internacionalização é essencialmente boa e trará benefícios a todos aqueles que com ela se envolverem. Condena-se o isolamento, o nacionalismo exacerbado, e internacionalizar-se é o caminho indicado às empresas para a sustentabilidade e o desempenho excelente.

Os críticos dessa concepção têm sido bastante estridentes na manifestação da discordância. Protestos contra a globalização e a internacionalização têm estado presentes em diversos momentos e em várias partes do mundo. Em Seattle, nos Estados Unidos; Gênova, na Itália; Edimburgo, na Escócia; e até em Porto Alegre, no Brasil. Aqui a perspectiva se altera. A internacionalização, usando o manto da globalização, é mais uma forma de imposição dos mais fortes, ricos, tecnológica e militarmente avançados sobre os mais desvalidos. Tratar-se-ia de mais uma onda de arrogância do Primeiro sobre o Terceiro Mundo. Os ganhos e benefícios da globalização são palpáveis para os que já possuem. Mas para os que ainda não conseguiram ingressar no clube dos mais ricos ela é danosa.

Essas duas posições contêm verdades parciais e distorções parciais. O sonho de uma integração da humanidade é milenar. Mas ela não se fez até hoje. Talvez nunca venha a acontecer. Porém o que importa é que não se pode permanecer à margem do processo de internacionalização. E atualmente os motores da internacionalização são as empresas. No passado foram exércitos conquistadores e missionários de algumas religiões.

Certamente as empresas dos países mais avançados estão liderando o processo. Começaram a internacionalizar-se há mais tempo. Muitas delas já nasceram internacionalizadas, como as empresas de petróleo e mineração. Mas isso não tem impedido que muitas empresas com base em países menos desenvolvidos venham obtendo sucessos.

Em nosso país a atenção para a área internacional dos negócios ainda é vista com reservas. A tradição empresarial por aqui é olhar prioritária ou exclusivamente para o mercado doméstico. O mercado externo é visto como alternativa quando as coisas não caminham bem internamente. Mesmo nossa tradição de exportadores é recente, e por ora detemos uma parcela ínfima do comércio mundial. Há ainda poucas empresas brasileiras comprometidas com a internacionalização plena, ou seja, não se fazem presente apenas por meio de exportações, mas montando operações integradas de manufatura, comercialização e prestação de serviços noutros países.

Contudo, não há como retroceder nesse processo. Independentemente das posições que possamos ter a respeito da internacionalização, o tempo da independência completa com relação ao exterior terminou. O investimento que uma empresa realiza fora de seu país de origem acabará por fortalecê-la e também à economia do país onde ela tem suas raízes. A internacionalização é uma via de crescimento para um país como o nosso, que luta para superar anêmicas taxas de crescimento e precisa desesperada e urgentemente ascender a níveis maiores não só no presente, mas também assegurar um futuro de melhor qualidade aos seus habitantes.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e Editor

Portal FGVENG

Escolas FGV

Acompanhe na rede