GV-executivo, vol. 5, n. 2, maio-jun 2006

Editorial: 

Afinal, o que aconteceu com as mulheres? Depois de atuar como simples coadjutora da história e dos processos sociais, que incluem a administração, a tendência parece reverter irreversivelmente em nossos dias, colocando a mulher cada vez mais em situação de paridade com seu histórico rival e opressor, mas também amante e companheiro. É interessante retomar alguns pontos do longo trajeto.

A comparação entre mulheres e homens ao longo da história recebeu vários enfoques. Na maioria das vezes e nas mais diversas culturas o veredicto foi sempre pela inferioridade feminina em face do esplendor masculino. As religiões do Ocidente brotaram da majestade patriarcal. Deus é homem, pai e também misericordiosamente fraterno. Ao longo do desenvolvimento de uma cultura cristã na Europa medieval não havia lugar para dúvida. A plenitude humana estava com os homens.

A interdição católico-romana do sacerdócio às mulheres é um vestígio em nossos dias desta concepção. Nas bases clássicas de nossa tradição na antiguidade greco-romana também se considerava "natural" a inferioridade da mulher. A cidadania lhes era liminarmente vedada e daí seguiam-se todas as demais restrições. Na maioria das culturas orientais o destino das mulheres não tem sido diverso. A secular cultura chinesa é ferozmente patriarcal e assim se mantém até nossos dias. Nalgumas culturas do sul da Ásia as viúvas até recentemente eram sepultadas com os maridos.

O feminismo é um movimento típico e ainda quase exclusivo da cultura ocidental. Nos países islâmicos a situação da mulher não apresenta indícios de que algo esteja mudando. A população feminina é quase inteiramente analfabeta, sendo-lhe vedado o acesso ao ensino fundamental.

Mas o feminismo, entendido como movimento que vem produzindo a emancipação da mulher ou a sua equiparação ao homem, integra o processo de modernização. Elemento fundamental foi o ingresso da mulher no mercado de trabalho e também a conquista de direitos sociais e políticos até recentemente reservados apenas aos homens. Vivemos ainda um processo. A sociedade ocidental ainda é patriarcal, mas em processo de fragmentação, subsistindo de maneira mitigada.

E as mulheres continuam ascendendo rumo a um mundo em que gêneros não serão por si só mais determinantes de superioridade ou inferioridade. A mulher chegou há pouco tempo no mundo da administração. Apesar de ocupar numerosas posições ainda está distante das cúpulas organizacionais. Mulheres em posições elevadas adquirem visibilidade mais por serem exceção à regra, que é a de salas de conselhos de administração e diretorias serem ainda espaço quase exclusivamente masculino. Discriminações prosseguem em termos de remuneração e reconhecimento. Embora mudanças sejam inegáveis, valores mudam mais lentamente do que se anuncia na maioria das vezes.

As mulheres deram uma longa volta. Estamos a assistir um verdadeiro turnaround. Este número da GV-executivo dedica parte de sua edição a explorar algumas facetas dessa transformação. E é também aquele que inaugura a nova periodicidade, que passa a ser bimestral.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e Editor
 

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