GV-executivo, vol. 4, n. 4, nov-jan 2005

Editorial: 

A morte de Peter Drucker aos 95 anos é momento oportuno para que se homenageie o pai do moderno management e se reflita um pouco sobre o que há por fazer. Ele nunca sucumbiu ao estrelismo que aproxima os atuais gurus do pop management.
Personalidade discreta, marcado por uma austeridade de raízes européias e pouco afeito ao estilo de autopromoção próprio da cultura dos Estados Unidos, não se caracterizou por prometer panacéias, como se tornou corrente entre consultores de administração.
Nunca um livro seu foi apresentado como a solução definitiva para os problemas de uma empresa. Ao contrário, sua leitura é possivelmente pesada para boa parte dos executivos atuais, habituados aos sumários executivos e aos resumos disponíveis na Web.
Ao renunciar ao estrelismo, Drucker manteve sempre um distanciamento crítico com relação aos problemas da administração. Nunca desceu ao nível de técnicas específicas, como tem sido feito freqüente, vide conceitos como BSC, Reengenharia, Orçamento Base Zero etc. O foco de suas preocupações sempre foi a administração vista em seu sentido genérico, de uma perspectiva integrada.
Outra razão de sua permanência foi sua intuição para perceber as grandes transformações. Entre tantas intuições, previu que, apesar de a cena econômica estar dominada por grandes corporações, dirigidas por profissionais de administração, empreendedores jamais desapareceriam. O surto empreendedor registrado a partir da década de 1980, com o advento de novas tecnologias, confirma sua intuição.
Cunhou ainda o termo knowledge worker - trabalhador do conhecimento -, para sintetizar as mudanças no trabalho e nas relações entre as pessoas e as organizações. A esse conceito liga-se também a colocação das dificuldades que seriam enfrentadas pelas economias mais avançadas com o envelhecimento de suas populações e a manutenção de uma economia cujo desempenho pudesse assegurar os níveis de afluência a que as sociedades ricas se houvessem adaptado. O conhecimento seria conseqüentemente o único produto vendável que geraria elevado valor adicionado e que necessitaria de trabalhadores do conhecimento.
Debilidades na obra de Drucker já foram apontadas. A mais séria é a de que é um conjunto de truísmos, que não passariam de bom senso posto em ordem. Na verdade não afirmaria mais do que o óbvio. Não se pode refutar inteiramente essa ácida colocação, mas talvez até na debilidade a obra de Drucker possa ser vista como uma prestação de serviço à administração. Sua debilidade pode ser entendida também como a debilidade da própria administração enquanto conjunto de conhecimentos. Embora a administração tenha surgido com outras ciências sociais, não logrou desenvolver um cerne teórico que lhe assegurasse um lugar entre as ciências.
Não há dúvida de que Peter Drucker foi o que mais longa e consistentemente tentou desenvolver uma ciência da administração. Apesar de seus inegáveis méritos e da importância de sua obra, muito ainda resta a ser feito.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e Editor
 

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