GV-executivo, vol. 4, n. 3, ago-out 2005

Editorial: 

O capitalismo, ou economia de mercado, passou a ser criticada desde que surgiu. No início do século XIX, quando a Primeira Revolução Industrial ainda estava em curso, os socialistas utópicos já o denunciavam. Em seguida, veio a monumental crítica ao capitalismo de Karl Marx, a qual incluiu um vaticínio e uma sentença de morte. O sistema capitalista estaria fadado ao desaparecimento engolfado por suas contradições. Na primeira metade do século XX, até mesmo um simpatizante do capitalismo como o economista austríaco Joseph Schumpeter, não via futuro para ele. Achava que se o futuro não fosse vermelho, seria ao menos róseo. E atravessamos todo o restante do século passado com infindáveis críticas, mas poucas propostas alternativas.

O desmoronamento do experimento socialista de tipo comunista deixou os partidários do capitalismo eufóricos. Na verdade, a história confirmava a propriedade das economias de mercado e a incapacidade das alternativas socialistas entregarem o que prometiam: desenvolvimento, ou seja, acúmulo de riqueza, e sua justa distribuição social. E o cerne do capitalismo era o mercado, grande cenário onde as coisas se passavam e onde as grandes decisões eram tomadas. Este mercado seria, por definição, competitivo, espécie de deslocamento do darwinismo para o mundo da economia. Já que os seres vivos mais aptos sobrevivem por se adequarem às condições de escassez, da mesma forma as empresas que melhor se adequarem às condições competitivas do mercado sobreviverão. As menos competitivas, como as espécies darwinistas extintas, encerrarão suas atividades, num grande ritual purificador da economia em que se celebra, simultaneamente, a sua vitalidade com a sobrevivência dos mais capazes.

A preocupação que surge é saber qual o futuro da competição. Na maioria dos países surgiram agências reguladoras e legislação a fim de preservar a concorrência. Leis anti trust nos Estados Unidos, o CADE em nosso país, todos protegendo o consumidor contra uma indevida concentração, que acabaria por prejudicá-lo. Paradoxalmente, teríamos chegado ao limite e ao final da competitividade? Teria ela se exaurido, privada da energia que o próprio processo competitivo acabou consumindo como um recurso não renovável? Não se poderia aventurar tal vaticínio. Mas não há dúvida que atualmente se abre às estratégias das empresas um mundo de cooperação, que dialeticamente foi gerado pela competição. Vemos surgir redes de parcerias diversas, envolvendo fornecedores, venture capital, múltiplas formas de associação para partilhar recursos tecnológicos, gerando novos produtos e serviços. Estamos dedicando este número da revista às questões de Competitividade e Desenvolvimento, procurando relacionar e articular os dois conceitos. Não se imagine que se realiza aqui outro elogio da competitividade sem reservas. Certamente ela produziu e produz frutos sob a forma de desenvolvimento com seus custos inevitáveis. Mas é fundamental não descurar da cooperação como caminho estratégico, que bem pode ficar para um número futuro da GV Executivo.

Carlos Osmar Bertero
Diretor e Editor

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