GV-executivo, vol. 2, n. 1, fev-abr 2003

Editorial: 

A capa desta edição é dedicada ao importante tema da Ciência e Tecnologia. No artigo da página 16, Carlos Henrique de Brito Cruz, reitor da Unicamp e ex-presidente da Fapesp - portanto, escrevendo de privilegiadíssima posição -, esclarece-nos sobre o estado das coisas no Brasil. Seu argumento é transparente: nossa capacidade de fazer ciência tem aumentado, mas nossa capacidade de produzir tecnologia é limitada e insuficiente. Para Brito, a inovação tecnológica é criada muito mais na empresa do que na universidade; a missão da universidade é formar pessoal qualificado.
Entre outras reações mais diretas, o texto leva-nos a paralelos instigantes com o mundo da administração.
Poderia o argumento central ser aplicado ao nosso domínio?
Se a resposta for afirmativa, e a "tecnologia" administrativa também estiver sendo forjada nas organizações - o que, aliás, constitui hipótese bastante plausível -, qual o papel da pesquisa em gestão?
Deveria o foco das escolas de Administração voltar-se apenas para a preparação de pessoal qualificado? É possível ensinar sem ter o lastro de uma atividade de pesquisa?
Não é papel deste editorialista, em tão curto espaço, abordar tão complexas questões, mas algumas provocações iniciais podem ser colocadas.

Primeiro, vale notar que a pesquisa em Administração do Brasil tem vitalidade, cresce a olhos vistos, mas ainda é inexpressiva no cenário internacional. Sua contribuição para a prática empresarial também é praticamente nula: poucos pesquisadores aventuram-se além da proteção de seus guetos e, quando o fazem, parecem ter pouco a dizer a empresários e executivos. Estes, note-se, preferem o canto mais afinado e sedutor dos gurus e da literatura de auto-ajuda - "Quem roubou meu queijo?", e pérolas de similar valor. Mas talvez não o fizessem se tivessem melhor opção.

Segundo, a pesquisa em Administração no Brasil - e também em outras plagas - é cada vez mais produzida de forma burocrática: serve para fins de pontuação, titulação, ascensão em carreiras e remuneração. Mede-se por metro em congressos turístico-acadêmicos e encerram aí seus objetivos. O impacto sobre a prática não parece ser critério relevante.
Finalmente, para fazer um contraponto, existe espaço e vontade de aproximar teorizações e prática gerencial. Mas para isso é necessário romper a inércia e as paredes que separam a torre de marfim acadêmica do volúvel mundo corporativo. Aí todos ganhariam.
Que a RAE-executivo e seus colaboradores explorem o espaço aberto!

Boa leitura!
Thomaz Wood Jr.
Diretor e Editor

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