RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 57, n. 5, setembro-outubro 2017

Editorial: 

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TEORIA, PRÁTICA E PARADIGMAS EM PESQUISA

Em 1990, Gioia e Pitre publicaram um esclarecedor artigo sobre a construção de teorias no periódico Academy of Management Review. Baseando-se no clássico modelo de Burrell e Morgan (1979), os autores apontaram que, apesar da maioria dos trabalhos na nossa área estarem apoiados na abordagem funcionalista, a área é multiparadigmática, e mostraram como é possível construir teoria e contribuir para o conhecimento a partir também de abordagens interpretativistas, do humanismo radical e do estruturalismo radical. Além disso, argumentaram os autores, essas abordagens possuem fronteiras permeáveis, diferentemente dos muros que hoje insistem em fechá-las. Modelos, como o próprio nome diz, são tipos ideais e a realidade não se encerra em apenas uma ou outra forma.

Desde 1979, as perspectivas epistemológicas multiplicaram-se criativamente, ainda que as bases de classificação estejam no clássico do livro de Burrell e Morgan. Mas, passados quase 30 anos da publicação de Gioia, há ainda pesquisadores que insistem em considerar apenas a abordagem funcionalista como digna de crédito. Uma perda para o contexto de pesquisa em Administração no Brasil, que não pode, teórica e praticamente, se beneficiar dos avanços que essas múltiplas abordagens podem trazer. 

Ficamos na academia prisioneiros dos pensamentos binários que definem atualmente a política e começam a determinar também os modos de fazer ciência, modo 1 e modo 2, um aplicado às teorias e outro aplicado à prática. A famosa frase “nada mais prático que uma boa teoria”, atribuída à K. Lewin, continua atual, ainda que não seja alcançada por muitos da nossa área. Lewin teve forte influência no desenvolvimento da pesquisa-ação e nas práticas de Mudança e Desenvolvimento Organizacional. A ciência é também conhecimento obtido no longo prazo, com resultados nem sempre de uso prático imediato. Isso não quer dizer que devemos deixar de pesquisar. A questão é também atribuir pesos e medidas diferentes para esses modos de produção do conhecimento. Como tornar a pesquisa em Administração mais democrática, condição fundamental para o desenvolvimento de qualquer ciência? Como levar o conhecimento acumulado para a prática das empresas? Ou não há mesmo interesse nesse conhecimento porque ele questiona o poder estabelecido? Como Gioia e Pitre (1990) também apontaram: as pessoas não gostam de mudar o seu modo de pensar e novidades nem sempre são bem-vistas. Esperamos que os artigos da RAE ajudem a contribuir com a construção de conhecimento em Administração.

A RAE reafirma seu escopo multiparadigmático nos artigos que estão apresentados nessa edição. O artigo “El rol del consejo de Administración en la ética empresarial en países de latinoamerica”, com análise quantitativa de 100 empresas na região, aborda uma questão teórica e prática de relevância para o contexto atual, e aponta os efeitos positivos da participação de mulheres e conselheiros independentes nesse colegiado. Em “Organizing: Compreendendo interações e práticas no grupo Galpão”, a partir do debate teórico promovido por Weick e Czarniawska, os autores investigam um Grupo de teatro, questionam o pensar reificado sobre as organizações e estimulam os pesquisadores a buscar compreender os processos em pequenas e médias empresas. Também sobre conselhos, “Diagnóstico e análise das competências dos conselheiros de Administração” trata das habilidades necessárias para os membros do conselho em empresas de capital fechado e aponta que as competências comportamentais são mais relevantes que as técnicas e que o “apego ao poder”, entre outros fatores, prejudicam a performance do conselheiro. Fundamental também para o momento atual, o artigo “Acordo setorial de embalagem: Avaliação à luz da responsabilidade estendida do produtor” discute os impactos das políticas prometidas pelo acordo setorial na cadeia de reciclagem brasileira. “The taste transformation ritual in specialty coffee market” mostra, a partir de pesquisa etnográfica, como consumidores transformaram seu gosto pelo café, com explicações teóricas a partir do ritual de consumo. Finalmente, o artigo “Prospect theory: A parametric analysis of functional forms in Brazil” analisa as preferências por risco no Brasil, com resultados práticos sobre o uso de recursos.

Como se pode observar, a edição traz diversas áreas de conhecimento em Administração: Estratégia, Organizações, Logística e Sustentabilidade, Marketing e Consumo, e Finanças Comportamentais, com artigos que abordam distintas perspectivas epistemológicas, oriundos de pesquisas de diversas instituições brasileiras e também internacionais.

Na edição passada, inauguramos a seção Perspectivas e tratamos do tema da internacionalização dos journals brasileiros. Neste número da RAE, o convite foi para editoras de destacadas revistas brasileiras de Administração escreverem sobre o papel dos periódicos no cenário nacional. Assim, temos os ensaios de Ariádne Scalfoni Rigo, editora da Organizações & Sociedade, sobre “Comunidade acadêmica, produtivismo e avaliação por pares”, e de Maria Sylvia M. Saes (editora-chefe da Revista de Administração - RAUSP), Adriana Marotti de Mello e Luisa Veras de Sandes-Guimarães, “Revistas brasileiras em Administração: Relevância para quem?”. Os textos são complementares, pois tratam de vários aspectos que envolvem a produção das revistas no cenário local atualmente. Questões sobre as quais todos nós, da comunidade acadêmica em Administração, precisamos conversar, debater e encaminhar soluções.

Completam essa edição as resenhas “Repensar e reaprender na era pós-digital”, por Lucas Rodrigo Santos de Almeida, e “Measurement error and research design: Preenchendo o gap entre teoria e método”, por Vitor Koki da Costa Nogami; e a seção Indicações Bibliográficas, sobre Entrevistas Qualitativas, por Benjamin Rosenthal, e Antropologia digital, por Rita de Cassia Alves Oliveira.

Boa leitura!

Maria José Tonelli e Felipe Zambaldi
Professores da Fundação Getulio Vargas, Escola de
Administração de Empresas de São Paulo – São Paulo – SP, Brasil

 

REFERÊNCIAS

Burrell, G., & Morgan, G. (1979). Sociological paradigms and organisational analysis: Elements of the sociology of corporate life. London, UK: Heinemann Educational Books.

Gioia, D. A., & Pitre, E. (1990). Multiparadigm perspectives on theory building Academy of Management. The Academy of Management Review, 15(4), 584-602. doi:10.5465/AMR.1990.4310758

 

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