RAE-Revista de Administração de Empresas, vol. 57, n. 4, julho-agosto 2017

Editorial: 
 
Este número celebra o aniversário da RAE-Revista de Administração de Empresas: 55 anos ininterruptos de publicação. A RAE teve papel fundamental na construção do campo aplicado e acadêmico em Administração em nosso país, ao divulgar pesquisas e práticas em diversas áreas da Administração, e na construção da profissão do administrador, como mostram os textos de Bresser-Pereira (1966) e Bertero (1968).
 
March (2007) argumenta que os estudos sobre a Administração são afetados pelo tempo e pelo local em que são realizados. A criação da Revista de Administração da Universidade de São Paulo (RAUSP), em 1947, marca a gênesis do campo acadêmico em Administração no Brasil, e a criação da RAE, em 1961, inaugura e organiza diversos campos, como marketing, finanças, produção e comportamento organizacional no País (Tonelli, 2014), bem antes da institucionalização da pesquisa acadêmica, com a criação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD) em 1976. O ambiente era de prosperidade no pós-guerra, quando foram criadas várias escolas de Administração para profissionalizar a gestão familiar e contornar o personalismo que marcava o modo de administrar brasileiro. Fazer pesquisa no Brasil não era uma tarefa fácil, seja pelo tema inovador em si, seja pela dificuldade para se promover pesquisa de qualidade no Brasil, com foco no desenvolvimento social do País (Schwartzman, 1979). Fazer pesquisa em Administração, área marcada por múltiplas perspectivas, exigia esforços dos poucos programas de pós-graduação na ocasião.
 
Desde o início, a RAE se colocou como uma forma de ver o mundo e de agir sobre ele. Se discursos são práticas, tal como proposto na abordagem construcionista (Cunliffe, 2008; Spink, 1999), a revista ajudou na difusão dos repertórios linguísticos sobre a racionalidade administrativa e sobre os valores do management. Shenav (1999), ao pesquisar as revistas de engenharia nos Estados Unidos, na virada do século XIX para o XX, mostrou que “the magazines provided, filtered, and constructed knowledge about their organizational and technical world” (p. 213). A linguagem em uso nessas primeiras revistas construiu, ativamente e de modo síncrono, práticas cotidianas de gestão, o campo científico em Administração e a profissão do administrador.
 
Ao longo desses anos, é preciso destacar a orientação à reflexão sempre presente na revista: são vários artigos que debatem o contexto social, a necessidade de posicionamento político dos empresários, a desigualdade e o desequilíbrio econômico decorrentes da inflação, além de artigos críticos e que questionam os propósitos da área de Administração e da aplicabilidade do management em países subdesenvolvidos (Tonelli, 2014).
 
A RAE foi pioneira desde os seus primeiros anos. Sob o ponto de vista da internacionalização, a revista inovou e conduziu uma série de iniciativas em seu percurso, como a disponibilização trilíngue do website, a tradução do sistema de submissões e avaliações, posteriormente substituído por uma plataforma mundial, as chamadas internacionais de trabalhos, a publicação de artigos em três idiomas e a ampliação da participação de membros de instituições estrangeiras no corpo editorial. Soma-se a isso o ingresso da revista em diversos indexadores e bases internacionais, com destaque ao Journal Citation Reports (JCR) e SCOPUS. Merece atenção a evolução do fator de impacto da revista no JCR entre 2011 e 2016, de 0,213 para 0,408. No caso da base SCOPUS, a quantidade de citações da revista cresceu em mais de 380% entre 2010 e 2016, período em que o índice de autocitações diminuiu de 27% para 13%, indicando que outras revistas monitoradas pela base têm aumentado o uso dos artigos da RAE como referências citadas. A internacionalização do periódico também trouxe outros resultados relevantes, como a proporção crescente de artigos em língua estrangeira, alcançando 90% nas três primeiras edições de 2017, sendo 51% dos autores publicados nessas edições oriundos do exterior.
 
Esta edição comemorativa traz uma seção especial com um ensaio do ex-editorchefe da RAE, professor Eduardo H. Diniz, relatando sua experiência de sete anos na gestão editorial da revista e sua visão sobre a inserção internacional de periódicos brasileiros. Os professores José Eduardo Ricciardi Favaretto e Eduardo de Rezende Francisco realizaram um estudo do acervo de mais de 50 anos da RAE utilizando a bibliometria, text mining, rede social e geoanálise para trazer ao público resultados interessantes dos mais de 2 mil trabalhos publicados pela revista.
 
Para comemorar essa longa e profícua trajetória, inauguramos neste número uma nova seção: Perspectivas. Trata-se de uma seção que busca apresentar diferentes visões sobre um mesmo tema, por professores e pesquisadores com reconhecida inserção no campo. Convidamos, para esta edição, Salomão Alencar de Farias, da UFPE-PROPAD, editor da Brazilian Administration Review (BAR), e Rafael Alcadipani, da FGV EAESP, para tratarem do tema “Internacionalização dos periódicos brasileiros”. Ainda que com abordagens distintas, os dois artigos mostram como, ainda hoje, é difícil fazer pesquisa em Administração no Brasil, competir no mercado internacional de produção científica e contribuir para o desenvolvimento de nosso país. Esses dois artigos dialogam com o artigo do professor Eduardo H. Diniz da seção Especial RAE.
 
Completam a edição quatro artigos das áreas de estudos organizacionais, finanças, marketing e ensino e pesquisa em administração; uma pensata que defende a criação de um guia para avaliação de artigos da área de marketing e a resenha do livro Marketing discourse: Acritical perspective, de Per Skålén, Martin Fougère, e MarkusFellesson. Por fim, continuando com a proposta de apresentar indicações bibliográficas que tratem sobre métodos de pesquisa, teremos nesta edição uma seleção de livros sobre método experimental e pesquisa qualitativa de base positivista.
 
Apreciem sem moderação!
 
Maria José Tonelli e Felipe Zambaldi
Professores da Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo – São Paulo – SP, Brasil

 

REFERÊNCIAS

Bertero, C. O. (1968). Editorial. RAE-Revista de Administração de Empresas, 8(26), 12-15.

Bresser-Pereira, L. C. (1966). O administrador profissional e as perspectivas da sociedade brasileira. RAE-Revista de Administração de Empresas, 6(20), 89-110.
 
Cunliffe, A. (2008). Orientations to social constructionism: Relationally responsive social constructionism and its implications for knowledge and learning. Management Learning, 39(2), 123-199. doi:10.1177/1350507607087578
 
March, J. G. (2007). The study of organizations and organizing since 1945. Organization Studies, 28(1), 9-19. doi:10.1177/0170840607075277
 
Schwartzman, S. (1979). Um espaço para a ciência: Formação da comunidade científica no Brasil. São Paulo, SP: Editora Nacional
do RJ – FINEP.
 
Shenav, Y. (1999). Manufacturing rationality: The engineering foundations of the managerial revolution. New York, USA: Oxford University Press.
 
Spink, P. K. (1999). Análise de documentos de domínio público. In M. J. Spink (Org.), Práticas discursivas e a produção de sentidos
no cotidiano (pp. 123-152). São Paulo, SP: Cortez Editora.
 
Tonelli, M. J. (2014). Campo acadêmico em Administração: Mentalidades e práticas de gestão em 30 anos de publicações na RAUSP e na RAE (Monografia apresentada para professor titular na FGV EAESP).

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